Jornal Diário Popular , sexta-feira 17 de setembro de 1999
Pra variar, a notícia era importantíssima, mas não ganhou nenhum destaque. Durante a semana, foi confirmado que os EUA estão enfrentando um "rombo" cada vez mais colossal em seus negócios com o resto do mundo: em apenas um trimestre, ele chegou aos 80 bilhões de dólares, e deve passar dos 300 bilhões até o final do ano. De onde vem esse "rombo" monumental? Os EUA importam muito mais do que exportam e há muito tempo são o maior caloteiro do mundo. Há décadas, o valor das mercadorias vendidas pelos EUA para outros países (isto é, as exportações) superam o valor das mercadorias que os EUA compram desses países (isto é, as importações), em uns 15 bilhões de dólares por mês.
Como é que os EUA conseguem pagar essa diferença? Os EUA simplesmente imprimem, emitem mais dólares, que o resto do mundo sempre acertou como uma moeda "boa", forte. Desde o ano passado, porém, já era possível prever que o "rombo" norte-americano iria explodir — e, com essa explosão, a economia norte-americana iria caminhar para uma crise. Motivo dessa previsão? Muito simples: países (sobretudo os asiáticos) que sofreram violenta desvalorização de suas moedas passaram a exportar maciçamente para os EUA, levando o "rombo" às nuvens: ele pulou de 15 para 18 bilhões de dólares por mês, chegou aos 21 bilhões em junho e a 25 bilhões de dólares em julho.
E, atenção: a explosão só não aconteceu antes porque o petróleo estava com os preços baixíssimos (os EUA importam o produto maciçamente, na base de 8 a 10 milhões de barris por dia). A partir de janeiro, porém, os preços do petróleo, então a 10 dólares o barril, começaram a subir e passaram dos 20 dólares em meados do ano. O "rombo" dos EUA, portanto, vai continuar a crescer — e esse problema é que está ameaçando provocar uma crise na economia norte-americana, que na Bolsa de Nova Iorque e na confiança internacional no dólar.
Um processo que, como você deve ter visto nos últimos dias, já começou, com a alta das cotações da moeda japonesa, o iene, e das próprias moedas européias. Se tudo era tão previsível, por que nada disso aparece constantemente no noticiário? As análises econômicas, em muitas épocas, parecem estar sendo feitas por papagaios, que repetem sempre a mesma coisa. No caso dos EUA, a mania é repetir a ladainha que “a economia norte-americana está tão bem que o Banco Central pode ser obrigado a elevar os juros para reduzir o consumo, e isso pode derrubar as Bolsas”.
Tolice de papagaio. Pode tomar nota: o “rombo” dos negócios dos EUA vai abalar a força que o dólar exibia – sem merecer, já que os EUA sempre compraram fiado, dos outros países, e pagavam com “papel pintado”, isto é, imprimindo dólar. E os EUA vão repartir a liderança mundial com a Europa. PS: todas as sextas-feiras, esta coluna vai procurar fazer um balanço das mudanças importantes na economia mundial.