[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto
data
veiculo
tema
Palavra-chave
Voltar

  O dólar e o dr. Gianetti

Jornal Diário Popular , quinta-feira 23 de março de 2000


A salvação do Real depende do crescimento das exportações, que devem ser maiores que as importações para haver uma sobra de dólares que permitam o pagamento dos compromissos do Brasil com os credores internacionais. No ano passado, o governo previu um saldo positivo de 11 bilhões de dólares para a balança comercial (exportações menos importações). Era apenas um chute, para manter o otimismo. Na prática, acabou havendo um rombo, ou saldo negativo, de 1 bilhão de dólares. Para este ano, o governo repetiu a dose do falso otimismo, e fala em um saldo positivo de 5 bilhões de dólares.

Diante dos maus resultados de janeiro e início de fevereiro, convocou um empresário com experiência em vendas ao exterior, o dr. Gianetti da Fonseca, para cuidar da área. Ótima indicação. Pena que, nos últimos anos, toda e qualquer pessoa convidada a participar do governo FHC imediatamente é contagiada pela epidemia crônica do otimismo delirante, perdendo contato com a realidade, fechando os olhos a problemas, e passando a fornecer explicações enganosas à opinião pública. Resultado: os problemas não são enfrentados, a crise econômica se aprofunda, o fracasso das previsões alarma os credores — e, no caso, a estabilidade do real continua em perigo.

Infelizmente, o dr. Gianetti não conseguiu fugir à regra. Em fevereiro, houve um saldo positivo da balança comercial (exportações superiores às importações), aliás, ridículo, próximo dos 100 milhões de dólares. O recém-chegado ao governo não teve dúvidas: imediatamente, deitou a dar entrevistas, garantindo que, de agora em diante, os resultados seriam positivos todos os meses (coisa que o ministro Malan faz desde 1995, levando o Brasil ao buraco), e que o saldo gigantesco estava a caminho. Quebrou a cara. Menos de duas semanas depois, a balança comercial voltou a apresentar um ‘‘rombo’’, igualmente próximo de 100 milhões de dólares — em uma única semana de março.

O dr. Gianetti adotou o mesmo comportamento da equipe econômica do governo FHC: em plena era do computador, não faz cálculos minuciosos para chegar a projeções corretas, calculando detalhadamente, por exemplo, quantas toneladas existem de determinados produtos agrícolas para serem exportados — e quantas toneladas o Brasil vai ser obrigado a importar.

Contaminado pelo irrealismo de seus colegas e superiores, não deixou por menos, e saiu-se com explicações que ele próprio não aceitaria, antes de integrar-se ao governo. O aumento nas importações e a queda nas exportações, segundo ele, seria resultado da queda do dólar sobretudo a partir de fevereiro, que teria barateado as mercadorias estrangeiras, e encarecido os produtos nacionais.

Como especialista, o dr. Gianetti está cansado de saber que as negociações para importar e exportar demoram meses, não sofrem efeitos da variação do dólar, para cima ou para baixo, em poucos dias. Os problemas das exportações e importações brasileiras são mais graves, foram provocados pela desnacionalização da economia e exigem mudanças de política econômica. Com diagnósticos errados, o real continuará sob ameaça.



Acompanhar a vida do site RSS 2.0 | Mapa do site | Administração | SPIP Esta obra está licenciada sob uma Licença CreativCommons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil