Revista Doçura , fevereiro de 1980
Os jornalistas especializados estão puxando o resto dos cabelos. Entrou ano, saiu ano, e eles não vêem esperanças de acabar a crise tão cedo. Petróleo? Não. A culpa mesmo é de quem inventou o modelo de carro-de-boi onde o carro vai na frente e o boi, atrás...
Sejamos sinceros: não é o petróleo. A culpada mesmo é a devoradora dos nossos recursos, a dívida externa. No fim dos anos 70, ela passava dos 54 bilhões de dólares. Um número pavoroso. Para dar uma idéia, é como se todo brasileiro, inclusive recém-nascido, devesse lá fora, a bancos e multinacionais, a bagatela de 20 mil cruzeiros! Por que é pavoroso?
A família Brasil — Faça de conta, como Ruy Barbosa, que o país seja uma "família amplificada". O país também vive dentro de um orçamento. Se gastar mais do que ganha, vai acabar nas mãos até de agiotas, atrás de dinheiro. O salário do país vem das mercadorias que ele vende lá fora. E seus gastos? São as compras de matérias-primas, peças ou então bugigangas, bebidas, etc. Resumo: o país ganha exportando e gasta importando.
Quando falta salário — Se o salário não está dando para o gasto, de duas uma: ou o país cobre o buraco com dinheiro e abre um novo negócio, sob responsabilidade própria ou em sociedade com alguém, para aumentar sua fonte de renda e sair do buraco.
Como pagar a nova dívida — Seja a família ou o país, o jeito agora, para pagar o empréstimo e os juros, é apertar os cintos; ou pegar mais e mais dinheiro emprestado e abrir mais e mais negócios, na esperança de que um dia os lucros virão.
Foi o que aconteceu — O Brasil entrou por este último caminho: resolveu crescer depressa de qualquer jeito, aí por 1970. Tomou dinheiro emprestado à vontade e chamou como "sócios" as múltis, para abrir aqui as fábricas que quisessem. I
O erro do modelo — Muito bem. O Brasil começou a produzir bastante. Carrão, aparelhos eletro-eletrônicos, esquadrias de alumínio, maravilhosos objetos de acrílico... Mas o país não produzia aço, alumí-nio, plástico, zinco, cobre, papel. Muito menos o petróleo para mover os beberrões de combustível, que tomaram o lugar dos trens (estes sim, grandes economizadores, mas onde estão?) Também não pro¬duzimos os fertilizantes que passaram a ser usados até exageradamente pela agricultura. Etc. etc.
É um desastre — O Brasil, diz um ex-ministro, fez uma "industrialização às avessas" — isto é, começou pelo fim, começou a produzir bens de consumo, antes de produzir as matérias-primas necessárias; antes sequer de pensar em produ¬zir máquinas e equipamentos para as fábricas. E quem teima em colocar o carro adiante dos bois, está procu-rando desastre. O Brasil passou a importar tudo, tudo, para manter as fábricas funcionan¬do. E importar quer dizer pagar em dólares. E tome dinheiro emprestado, e tome importa¬ção, e tome dívida.
E o Brasil ganha mal — Em 79, o país ganhou 15 bilhões de dólares em salários: quase 4 vezes menos do que ficou devendo! Comparado, é como se uma família com renda mensal de 20 mil cruzeiros, devesse 1 milhão na praça.
Tudo bem; se o prazo para pagar fosse "a perder de vista". Mas o prazo é curto e o que a família ganha num ano mal dá para suas despesas — e o buraco vai crescer...
O país é este — Hoje a situação é preocupante. Vamos a um rápido balanço, começando pela receita de 79: (em dólares)
Importou 17 bilhões Exportou 15 bilhões Prejuízo 2 bilhões Juros de empréstimos a pagar em 80: 7 bilhões Prestações de dívidas a pagar em 80: 8 bilhões Remessa de lucros das multis (a retirada dos sócios da "família"); iagens turísticas; fretes de navios: 3 bilhões "Rombo" total: 20 bilhões
Para cobrir isto, só mesmo pegando mais dinheiro emprestado, que custará mais juros: aumenta o "rombo" e a dívida.
Qual a saída? — Uma era apertar o cinto, segurar a produção que depende de importações (inclusive dar basta ao crescimento da produção de automóveis, que é altíssima).
Outra saída seria ainda uma vez tentar aumentar o salário: aumentar violentamente as exportações. Foi o que o governo resolveu fazer. Mas, pelos números vistos, pelos erros acumulados, é quase impossível encontrar alguém apostando, ainda, que essa política salve o modelo. Como numa velha anedota, sabemos que deve existir um remédio; o que não existe mais é paciente: capotou.