Jornal Gazeta Mercantil , quinta-feira 7 de agosto de 1975
De junho para julho, a entrada de leite B no mercado paulistano – o mais rico do país – caiu de 15,5 para 8,5 milhões de litros. Não por problemas de produção, trazidos pela geada ou pela seca. Simplesmente, por falta de mercado. De janeiro a junho, o fornecimento de leite B crescera à razão de 2,0 milhões de litros por mês, numa evolução demasiado rápida para não levantar suspeitas: segundo se admitia nos próprios corredores da Faesp, havia leite “C”, mais barato, sendo vendido como leite “B”, mais caro. Se a evolução da produção se caracterizava por essa nebulosidade, o “crescimento” do mercado tinha uma explicação claríssima: havia um consumo compulsório do leite “B” por uma queda gradativa no fornecimento do leite “C”, em parte pelo início da entressafra (e em parte pela “transformação” do leite “B” em “C”). Como sobreveio a reviravolta do mês de julho? Iniciada “oficialmente” a entressafra, começaram a ser reidratados os estoques de leite em pó formados pelo governo no período da safra, obtendo-se novamente leite “C” colocando compulsoriamente no mercado. Quais as lições contidas nesse vaivém de problemas da produção e abastecimento de leite? Fundamentalmente uma: a política agrícola adotada pelo país é absolutamente equivocada, viciada por uma visão tecnicista que tenta ignorar, em seus planos, a realidade brasileira, ou a realidade do baixo poder aquisitivo do brasileiro. É preciso revê-la, ainda com vistas à próxima safra, para evitar o desastre de safras encalhadas, miséria no interior, desemprego, baixas vendas industriais. Nas áreas oficiais essa realidade parece não ter sido ainda reconhecida, a julgar pela forma como foram decretados os novos níveis de preços mínimos para a próxima safra. Não se discute, atente-se, se os níveis são compensadores ou não para o produtor. Questiona-se o fato de não ter havido nenhuma outra medida paralela para estimular a produção – e assegurar seu escoamento –, como se 1974 fosse 1972. Como se ainda existisse o mercado externo. Como se ainda vigorasse o chamado modelo exportador.
A questão da pecuária leiteira não é uma exceção, é apenas um dos exemplos das diretrizes da política agrícola no país. Após anos de descapitalização do setor, por força de tabelamento, o governo resolveu dar-lhe preços magníficos e outras vantagens. O leite “C” subiu 400 a 500%, chegando a Cr$ 2,00 atualmente. Criou-se ainda o leite “B”, vendido a Cr$ 4,00. E bilhões (não milhões) de cruzeiros foram destinados ao financiamento da melhoria das condições de produção do leite “B” nas – atente-se – grandes propriedades. Juros subsidiados, em outras palavras, para concentrar a propriedade e a renda. Tudo, em nome do “avanço tecnológico” da pecuária leiteira. Dois equívocos, nessa orientação: também na pequena propriedade se pode aumentar a produtividade, se pode o avanço tecnológico. Basta que o governo do Estado – ou uma cooperativa – contrate um agrônomo e um veterinário para orientar o criador, e fiscalizar a aplicação dos créditos concedidos. O segundo equívoco: por “avanço tecnológico” entende-se sempre o uso de instrumentos sofisticados, como caríssimas rações na alimentação do rebanho (quando mandioca picada, cana de açúcar, batata doce, abóbora produzidos mesmo na pequena propriedade têm o mesmo efeito). Entende-se, enfim, que para haver “avanço” tecnológico é preciso encarecer a produção. O Brasil ainda não se perguntou o óbvio: que avanço tecnológico é esse que lhe tem sido empurrado garganta abaixo nos últimos anos? Avanço tecnológico significaria produzir mais e melhor, isto é, a custos mais baixos. No Brasil, tem significado produzir a preços mais altos, e, se há crescimento na produção, surgem os “excedentes” exatamente por causa desses preços. O caso do leite B está mostrando sobras: não há campanha para aumento de consumo que realize o milagre de “criar” consumidor, “criar” mercado. Existe mercado quando há renda, ou preços compatíveis com esse nível de renda. Milagre não existe.
Há um aspecto gravíssimo na fixação dos preços mínimos para a próxima safra. O governo estabeleceu para a soja (num exemplo, mas há outros) um preço que estimule o plantio, isto é, seja compensador, deixe – teoricamente – lucros para o produtor. No entanto, numa análise claríssima, o governo aponta que o mundo está caminhando para a superprodução de soja, (como haverá “excedentes” de outros produtos. Que vai haver “sobras” de 15 milhões de toneladas, isto é, 1,5 vezes a produção do Brasil, como estoques sem consumo. Que isso pode derrubar os preços do produto. Que a “febre da soja”, em resumo, pode levar a terríveis convulsões em 1976. Ainda assim, o governo fixa preços que vão estimular o plantio da leguminosa (e outros produtos de exportação) a partir do último trimestre deste ano. Por que? A primeira resposta seria: porque é preciso manter a atividade agrícola em alto nível. Mas, se vai-se estimular a obtenção de safras invendáveis, há um evidente contra-senso nessa diretriz. A resposta passa a ser, então, muito simples: O Brasil sofre de imobilismo. Acostumou-se com o “modelo exportador” dos últimos anos, em que era fácil e lucrativo colocar produtos agrícolas (e industrializados, subsidiados) lá fora. Recusa-se, por puro vício, a voltar-se para o mercado interno. Produzir soja (e outros produtos de exportação) invendável significa caminhar para a estocagem, o subsídio, a necessidade de emissões, o empobrecimento do interior, o agravamento do êxodo rural, o agravamento do “inchaço das cidades” em 1976.
Há tempo, ainda, para libertar-se da obsessão do “modelo exportador”, e voltar-se para o mercado interno. Isso pode ser feito dando-se maiores vantagens ao plantio de culturas que resultarão em alimentos para “melhorar a dieta” ou matar a fome de vastas faixas de população. Um mercado de baixa renda, mas que pode transformar-se em consumidor se o país ousar. Se o país decidir-se a subsidiar o consumo interno, se for preciso, de alimentos essenciais, garantindo o escoamento de safras. Vendáveis. Feijão, e não soja. Leite “B” e não leite “C”. Farinha de mandioca, fubá, toucinho – e não filé minhon.