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  Economistas e tolices

Jornal Diário Popular , sexta-feira 14 de abril de 2000


Você pode esquecer aquelas duas bobagens favoritas que economistas e líderes empresariais submissos ao Planalto gostam de repetir: que a economia está em recuperação, ‘‘graças à queda dos juros’’, e que as exportações estão crescendo, ‘‘graças à queda do Real, que barateou os produtos nacionais no Exterior e encareceu as importações, desde janeiro do ano passado’’. A realidade desmente essas tolices. Em março, as vendas do comércio varejista recuaram 7,5% na Grande São Paulo, segundo a federação do setor. A comercialização de veículos recuou para 85 mil carros, contra 110 mil em fevereiro (e 180 mil no ‘‘pico’’ de 1998). Nem mesmo o mercado de tratores e máquinas agrícolas escapou do retrocesso, com vendas 11% menores — apesar de ser época da venda das colheitas pelos agricultores (que, como esta coluna destacou há poucos dias, estão sendo ‘‘massacrados’’ por preços baixos e, portanto, enfrentando prejuízos). E a situação dos supermercados pode ser avaliada por qualquer consumidor que entre em uma de suas lojas e veja a floresta de Ovos de Páscoa dependurados e empilhados por todos os cantos, à espera de compradores há semanas...

Está acontecendo o que qualquer pessoa de bom senso poderia prever: é uma grande tolice dizer que uma redução de 0,25% ou 0,5% nos juros mensais pagos pelo consumidor vão reanimar as vendas e reativar a economia. O povo brasileiro está sem poder aquisitivo. E ponto. E as exportações? Segundo os economistas, ‘‘voltaram a decepcionar’’ na primeira semana de abril, enquanto as importações ‘‘voltaram a surpreender, situando-se acima das expectativas’’. Esses especialistas insistem em não enxergar a realidade. As importações de produtos intermediários, isto é, peças e componentes cresceram 22% este ano, mesmo com a desvalorização do Real. O que isso mostra, como esta coluna tem repisado exaustivamente? Que as multinacionais — automobilísticas, telefônicas, de medicamentos, ou que diabo seja — não se importam se os preços estão mais altos, como aconteceu com a queda do Real: elas continuam a importar peças, componentes, matérias-primas de suas matrizes, de seus países. E, como fez a indústria automobilística, por exemplo, simplesmente aumentam os preços para o consumidor brasileiro.

Com as exportações, a mesma coisa: as filiais brasileiras das multinacionais ganhariam mais dinheiro, teriam lucros maiores depois que o Real caiu, pois passariam a receber mais reais na troca dos dólares recebidos — se exportassem. Mas elas não estão interessadas nisso tudo: só exportam dentro dos limites impostos pelas matrizes, que obviamente reservam o mercado para elas próprias e criam empregos e pagam impostos nos seus países. Infelizmente, o diagnóstico errado dos economistas e líderes empresariais ajuda o governo FHC a manter sua política equivocada, contrária aos interesses nacionais, por semear desemprego e recessão. A crise da economia dos EUA, que vem aí, pode forçar mudanças nesse quadro.



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