Jornal Folha de S.Paulo ,
A indústria de bens de capital atingiu em agosto último o mais elevado nível de pedidos em carteira dos últimos dois anos, precisando de 77 semanas de trabalho para atendê-los, segundo dados da Abimaq — Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos. O setor, produtor de equipamentos mecânicos pesados, dispunha de encomendas para 70 semanas, em janeiro deste ano — e para 60 semanas, em média, em todo o transcorrer de 1980. Esses dados, mais uma vez, colocam em dúvida o acerto das previsões feitas por dirigentes da Fiesp, segundo as quais até o final do ano o número de desempregados pela indústria paulista deverá crescer para 300 mil, ou quinze mil a mais, em relação aos 285 mil que teriam perdido o emprego até a primeira semana deste mês. Segundo o presidente da Federação das Indústrias de São Paulo, Luís Eulálio Bueno Vidigal, em relatório entregue ao vice-presidente em exercício, Aureliano Chaves, novas demissões em massa seriam iminentes nos setores metal-mecânico e elétrico, porque, mesmo havendo uma reação no consumo, prevista para este mês, a crise desses setores continuaria a se agravar, "pois eles não dependem diretamente do comportamento do consumidor".
COMPENSANDO
Dirigentes dos dois setores confirmam que, em alguns subsetores, o "fundo do poço" ainda não foi atingido. Mas, mesmo que haja demissões nesses subsetores, isso não significará forçosamente um aumento no número global de desempregados, porque há outros setores em que já estão ocorrendo recontratações — que podem, assim, compensar as demissões. Sabe-se que esta semana, por exemplo, o subsetor de máquinas agrícolas (10% do faturamento de setor) aumentou o seu número de trabalhadores, mantido estável pelos subsetores de máquinas para plásticos e indústria gráfica — havendo porém, em contrapartida, fortes demissões no setor de máquinas-ferramentas (2% do faturamento do setor).
UM SETOR DE ALTOS E BAIXOS (Pedidos em carteira – números de semanas para atendê-los)
Janeiro Abril Julho Agosto Mecânica pesada 70,0 75,9 76,6 77,0 Máquina têxteis 18,1 14,0 10,0 9,7 Máquinas-ferramentas 17,8 15,3 12,9 12,1 Fonte: Abimaq/Simesp
Sem opinar sobre as previsões de novas demissões em massa, Einar Kok, presidente da Abimaq/Simemsp explica por que alguns setores ainda não teriam atingido o fundo do poço: — Quando a economia entra em retração, como ocorreu este ano no Brasil, o primeiro estágio é a queda nas vendas do comércio varejista, que, numa etapa seguinte, reduz suas encomendas à indústria — que, finalmente, suspende suas compras de matérias-primas e planos de expansão, vale dizer, compras de máquinas. Assim, a queda nas vendas que atingiu as indústrias de bens finais, dependentes do consumidor, no primeiro semestre, passou a afetar determinados fabricantes de máquinas, que não dependem do consumidor, mas de outras indústrias a partir de julho/agosto. Para estes, a situação continua a se agravar. É o caso, por exemplo, dos subsetores de máquinas têxteis e máquinas ferramentas, atingidas por violenta queda nas encomendas, hoje reduzidas praticamente a dez semanas de trabalho (v. tabela), em contraste com 77 semanas de encomenda para a mecânica pesada, beneficiada pelos grandes programas oficiais de investimentos, como Proálcool, Italpu, Tucuruí, Plano Siderúrgico ou mineração.
PREVISÃO ARRISCADA
Mesmo nos subsetores em que a queda na produção deve prosseguir, é arriscado fazer previsões sobre demissões em massa. Hiroyuki Sato, da Howa, lembra que o setor de máquinas têxteis já realizou violentos cortes em seu pessoal por volta de julho/agosto: — A mão-de-obra que foi mantida é altamente qualificada, as empresas procuram retê-la. Dispensá-la significaria perder os investimentos em treinamento e formação realizados pelas empresas, com prejuízos irrecuperáveis. Para Sato, esse dado afasta a possibilidade de novas dispensas em nível significativo: "Tudo depende do grau de resistência de cada empresa. Aquelas que tiverem condições econômico-financeiras para esperar que a crise passe certamente reterão seu pessoal, ainda que ele, efetivamente, seja superior às necessidades de produção, no momento." A tendência de "esperar a crise passar" deve ser reforçada, a partir de agora, diante da evolução das vendas do comércio. Segundo os dados do Clube dos Diretores Lojistas, por exemplo, a venda de confecções e tecidos cresceu 12,0% de janeiro a setembro deste ano em termos reais, isto é, já descontada a alta de preços, com avanço de 8% apenas no mês de setembro (sobre igual mês de 80). Se o consumidor está comprando mais, isso levará o comércio a aumentar seus pedidos à indústria têxtil que, numa etapa seguinte, voltará a encomendar máquinas aos fabricantes de equipamentos. Ao contrário do que diz o presidente da Fiesp, portanto, o avanço no consumo acaba se refletindo sobre as encomendas à indústria de máquinas. E a indústria de equipamentos pesados? No total de encomendas para 77 semanas — 27 semanas acima da média de 80 — ainda não estão incluídos os equipamentos a serem fornecidos a Carajás e outros grandes projetos de mineração como a Albrás/Alunorte, já assegurados para 1982. Ou as encomendas para o Proálcool e usinas hidrelétricas também asseguradas para 1982. O setor não tem motivo para preocupações.