Jornal Folha de S.Paulo , domingo 7 de março de 1982
O desemprego voltou a crescer em janeiro, segundo o IBGE. Os industriais temem pelo futuro de suas empresas. O ministro Delfim Neto responde que não há possibilidade de mudar nada, porque se a economia se reanimasse, as importações careceriam, e também a dívida externa. Na sua comparação favorita dos últimos anos, "seria a cobra devorando o próprio rabo". O ministro está ligeiramente atrasado em relação à realidade brasileira: faz tempo que o rabo é que está devorando a própria cobra. É outro "milagre" brasileiro, fruto da inércia e negligência de seus ministros, que não buscam alternativas diante da situação atual. E elas existem. Desgraçadamente, a apatia governamental diante da "camisa de ferro" em que a economia foi aprisionada contagiou os próprios lideres empresariais e economistas, que repetem não haver saídas à vista. E elas existem.
Dívida sobre dívida
Ninguém ignora, a esta altura, que o Brasil vem fazendo importações "desnecessárias", endividando-se ainda mais no Exterior e aumentando o número de desempregados é máquinas paradas, no País. "É inevitável", dizem líderes empresariais, repetindo o ministro. Será mesmo? Tais Importações são impostas, efetivamente, pelos credores internacionais, quando os ministros brasileiros viajam ao Exterior, em busca de novos empréstimos para pagar prestações da dívida externa que estão vencendo. Assim como acontece quando uma pessoa cai nas mãos de agiotas, os governos dos países industrializados prometem emprestar, por exemplo, US$ 500 milhões para o Brasil “usar livremente” (isto é, para pagar as prestações), desde que o Brasil importe outros US$ 500 ou 600 milhões de determinados produtos daqueles países. Em resumo, quando o Brasil precisa de US$ 500 milhões para pagar compromissos anteriores, ele toma emprestado outro US$ 1 bilhão: metade em dinheiro vivo, metade em importações financiadas. Quer dizer ele aumenta sua dívida em US$ 500 milhões. Comprando o que não precisa, ou o que não ê prioritário, ou o que poderia produzir.
Provocando inflação
Quando volta ao País, o ministro anuncia orgulhosamente que esses acordos com "países amigos" foram feitos em condições altamente favoráveis, a juros de 8 ou 10% ao ano, "multo abaixo das taxas de juros vigentes no mercado internacional, na casa dos 16%". Mesmo sendo verdade, os juros mais baixos não representam vantagem alguma, porque o fato é que as importações desnecessárias estão aumentando a dívida do País. E nem é verdade. Os juros podem ser baixos. Mas existe uma tramóia na operação: os preços dos bens importados são muito mais altos do que os custos que o Brasil arcaria, se fosse comprar esses bens, quando precisasse, no mercado internacional. Um exemplo? Os navios que o ministro comprou recentemente na Inglaterra, para serem revendidos às empresas brasileiras de navegação, não encontravam compradores porque seu preço era no mínimo 30%, dezenas de milhões de dólares, mais altos do que o custo normal. Isto quer dizer que as “importações forçadas” aumentam duplamente a dívida externa: por serem desnecessárias, e por apresentarem um “sobrepreço”, devorador de dólares. Pouca gente percebe, ainda, que elas são inflacionárias. Como assim? Se a Eletrobrás, por exemplo, compra equipamentos para usinas acima do preço normal, ela, para amortizar os seus gastos, "recuperar o capital empatado", vai precisar elevar as tarifas cobradas dos consumidores. Idem, para as ferrovias, ou companhias de metrô etc. etc. etc.
Mais desperdícios de dólares
Não pára ai, porém, o aumento da dívida externa provocado pelas “importações forçadas”.Como assim? É simples: ao concordar em comprar determinado produto, o Brasil aceita a mercadoria que o vendedor quer vender, seja ela adequada ou não às condições do País. Como a indústria dos países industrializados é sofisticada, produz bens sofisticados, para povos ricos, o Brasil é obrigado a engolir produtos muito mais caros, que consomem, portanto, mais dólares — e que vão exigir novas importações e novos gastos de dólares, multiplicando muitas vezes o crescimento desnecessário da dívida. Um bom exemplo desse endividamento desnecessário em cadela, e que o ministro Delfim Neto deve conhecer muito bem: lá pelos idos de 72/73, o Brasil comprou, na França, trens de subúrbios para São Paulo (que poderiam ter sido produzidos no Brasil). No princípio do governo Geisel, pelos idos de 74/75, houve um começo de "escândalo nacional": ficou-se sabendo, então, que os trens franceses eram tão sofisticados, tão sofisticados, que custavam v-á-r-i-a-s vezes mais do que os mais caros trens, não de subúrbios, mas de metro, usados em cidades dos EUA. Acusa-pra-lá, acusa-pra-cá, o novo governo queria cancelar a operação — mas, ao final, houve um acordo (parece que a França deu mais dois vagões em cada trem, como compensação) depois que o embaixador do Brasil em Paris, por sinal ministro todo-poderoso à época em que os trens tinham sido encomendados, entrou em cena avisando que uma quebra de acordo repercutiria mal (o telex do embaixador foi publicado pela imprensa paulista na época). Várias vezes mais caros, por sofisticação e sobrepreço, mesmo assim os trens franceses vieram. Há três semanas surgiu uma notícia na imprensa sobre seu destino: oito anos depois, continuam parados, sem uso. Por quê? Porque são "sofisticados", modernos, não podem funcionar com a rede elétrica e com a rede de comunicações das pobres empresas ferroviárias de um país como o Brasil. São inadequadas. Quando funcionarão? Quando houver novos acordos com os "países amigos", e o Brasil importar as redes elétricas, as redes de comunicação, etc. mais dólares gastos inutilmente. Mais dívida.
A armadilha infernal
Quem pensa que, a esta altura. Já tem um "retrato" da armadilha em que o País caiu, está enganado. O problema é multo mais grave, a armadilha é multo mais infernal. Acontece que, realmente, o Brasil precisa de empréstimos para pagar empréstimos que vão vencendo. Assim além de aceitar as importações forçadas, o País precisa ir aos banqueiros internacionais pedir dinheiro. Mas os banqueiros dizem que não entregam dinheiro assim, na mole: é preciso apresentar um projeto, e pedir dinheiro para aquele projeto. E é isso que está acontecendo de terrível com o Brasil: os ministros vivem inventando projetos, mesmo sabendo que eles são desnecessários, para pegar dólares e pagar empréstimos. Acontece que esses projetos representam novos empréstimos, Isto é, aumentam a divida. É o rabo comendo a cobra: no círculo vicioso atual, o Brasil levará anos para "colocar a dívida externa sob controle" (se o conseguir), isto é, durante anos continuarão os freios â economia, o desemprego, a crise social, os sacrifícios desnecessários para o povo, a falta de dinheiro para resolver os problemas reais.
A saída possível
A saída? Ela existe, bastando que a sociedade force os ministros da área econômica a saírem da sua inércia. Como assim? É obvio: o governo está impedindo o crescimento da economia para impedir o crescimento das importações de matérias-primas, peças, componentes usados pela indústria e agricultura, certo? Mas o mesmo governo, "no desespero", vai ao Exterior e faz importações "desnecessárias", certo? Então, o paradoxo é total: freia-se a economia, para não importar, e importa-se — mantendo a economia numa camisa-de-força. O que fazer? Planejar. Analisar as necessidades de importação, setor por setor, para que as empresas funcionem e criem empregos. Fazer listas dos produtos — necessários — a serem importados. E, então, procurar os "países amigos", e fazer acordos com eles para importar essas mercadorias, desde que eles façam os empréstimos hoje "amarrados" às “importações forçadas”. O que interessa a esses países é exportar, portanto os acordos são viáveis. Com eles, o País importaria o que sua economia realmente precisa: a dívida cresceria sob controle e com fins produtivos. Lógico que para saber o que precisa importar, o Brasil deveria rever todos os seus planos, identificando os setores com potencial de crescimento. Pararia de "Inventar" projetos malucos, só para "pegar" dólares, como foi o caso do Plano Energético, onde o País despejou bilhões de cruzeiros e bilhões de dólares para construir usinas desnecessárias, havendo, agora, sobra de energia. Rompido o círculo vicioso, o País poderia planejar seu futuro, deixando de viver na atual incerteza, totalmente dependente da dívida externa. Para isso, seria preciso planejar. Pena que o ministro do Planejamento declare ter horror ao planejamento. O rabo continua devorando a cobra.