Jornal Diário Popular , quarta-feira 15 de setembro de 1999
Os trabalhadores sentiram na pele, há muito tempo, as aberrações criadas pelo escancaramento do mercado brasileiro ao capital estrangeiro, sempre explicado como uma "tendência inevitável", por causa da tal da "globalização". Desemprego, salários rebaixados, foram as principais conseqüências dessa política. Agora, tudo indica que, finalmente, também os empresários – ou melhor, suas entidades— estão despertando do prolongado sono dos últimos anos, e reagindo contra a orientação do governo FHC.
É este o significado da advertência feita pela Federação das Indústrias de São Paulo, diante da invasão das gigantescas redes varejistas internacionais, que vêm comprando cadeias de lojas menores, em todo o Brasil.
A preocupação da indústria é simples: quanto mais essas multinacionais alargam seus domínios, com a extinção dos concorrentes menores, mais elas conseguem "massacrar" a indústria. Isto é, conseguem impor preços baixos e prazos longos para pagamento das mercadorias, reduzindo a margem de lucro e forçando as indústrias a utilizarem empréstimos até receberem as faturas, arcando, portanto com os juros, com novas perdas de dinheiro. Isto sem falar na orientação, de algumas dessas multinacionais varejistas, de trabalharem largamente com mercadorias importadas principalmente de seus países, roubando assim mercado de produtos nacionais.
O alerta da Fiesp surge como uma "guinada" na atitude passiva do empresariado nacional, que engoliu sem protestar — e em algumas ocasiões até apoiou publicamente — o "modismo" dos anos 90, de apontar o gigantismo de empresas, às custas de fusões, incorporações de concorrentes, como um fenômeno saudável. Uma tendência benéfica, dizia-se, porque traria operações em maior escala, com redução de custos, beneficiando fornecedores e o consumidor.
Como aconteceu com outros modismos adotados irresponsavelmente pela espécie humana, o passar do tempo se incumbiu de mostrar as reais conseqüências das mudanças: os grupos monopolizadores acabam "sugando" tanto fornecedores quanto consumidores, impondo preços baixos aos primeiros, e preços altos aos segundos. O bom observador já teria notado, com base em notícias surgidas nos últimos meses, que o problema que agora assusta a Fiesp já vinha afetando outros setores da economia. Exemplos: as grandes redes de supermercados têm imposto preços vergonhosos na compra de produtos dos agricultores; as telefônicas têm exigido preços irrisórios na compra de equipamentos; as indústrias de laticínios têm arruinado os produtores de leite, e assim por diante.
Tudo, porque a mania da globalização levou muitos países a relaxarem as leis contra os monopólios e cartéis, que os principais países capitalistas mantinham há décadas. No Brasil, a reação ainda chega a tempo de evitar o aprofundamento das aberrações.