O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto

  Duas escolas da economia,
por Ciça Guedes e Valentina Nunes

Revista Momento, Julho/Agosto de 1997

Para entender a língua falada no reino dos economistas, o cidadão comum conta com alguns aliados: os jornalistas especializados em economia. As privatizações dão lucro ou prejuízo para o Estado? Quais as vantagens ou desvantagens nos acordos entre o governo e empresas privadas? E por que as ações nas bolsas de valores despencaram? Esses são temas que jornalistas como Miriam Leitão e Aloysio Biondi traduzem todos os dias na imprensa para a linguagem dos simples mortais. Os dois já passaram pelos maiores veículos de comunicação do País. Miriam foi uma das primeiras mulheres a assumir a editoria de Economia de um grande jornal. Atualmente, ela pode ser ouvida na rádio CBN, lida no jornal O Globo ou vista na Rede Globo. Biondi, que aos oito anos de idade leu “O escândalo do petróleo e do ferro no Brasil”, de Monteiro Lobato, é diretor geral do Diário do Comércio e Indústria e assina uma coluna na Folha de S.Paulo. Em entrevista à Momento, revelam seriedade e paixão pelo jornalismo. Mas quando os temas são privatização, reeleição, Proer e a relação da imprensa como presidente Fernando Henrique Cardoso, eles vão para lados opostos.

Momento: O Estado brasileiro apresenta um profundo déficit social. A saída é o mercado ou o Estado mínimo como muitos apontam?

Miriam Leitão: O resgate da dívida social tem de ser comandado pelo Estado. A queda da inflação fez uma parte do trabalho de distribuição de renda. Mas não basta. É preciso haver políticas sociais ativas. É bom lembrar, no entanto, que a dívida social foi aprofundada no período do estadismo. Através dos subsídios, isenções fiscais, tarifas a baixo custo, dívidas não pagas ao Banco do Brasil, transferências para os fundos de pensão das empresas públicas. O estadismo concentrou renda no Brasil, aprofundou o processo de exclusão social.

Aloysio Biondi: O Estado hoje absorve tudo o que é podre do sistema financeiro privado. Ele vai gastar 85% no rodoanel de São Paulo, retirados da área social, e o setor privado, que vai entrar com 15%, ficará com a receita durante 25 anos. Como é que se pode falar que é Estado mínimo? Quando privatiza qualquer coisa fica com o passivo trabalhista, com as dívidas. Tudo isso é um patrimônio coletivo do qual você poderia ter um rendimento para pagar o Estado mínimo na área social. É uma balela, não se está caminhando.

Momento: Quais as ameaças à atual política de estabilização econômica e o que pode comprometer a popularidade do presidente Fernando Henrique antes da eleição?

Miriam Leitão: Há ameaças fora de nosso controle, como uma crise financeira mundial, que não parece provável. Há riscos de o crescimento do déficit público reduzir a confiança no País e alimentar a inflação. Quando a inflação sobe, cai a popularidade do presidente. Tem sido assim. Mas outros fatores podem afetá-la, como se viu recentemente.

Aloysio Biondi: Ameaça em si é o rombo da balança que pode chegar a uma situação descontrolada. Outra é o desemprego. Você conversa com o garçom, balconista e todo mundo tem duas ou três pessoas desempregadas na família. Não adianta dizer se energia é estratégica, se tinha de ter política industrial, isso é muito distante do homem comum.

Momento: Quais são os principais erros da política econômica do governo FHC?

Miriam Leitão: Ele cede antes de começar a negociação. No caso das reformas, as propostas foram aguadas antes de serem apresentadas ao Congresso. Concessões pioraram as propostas, a tal ponto que hoje não se sabe mais por que e para que se luta. Falta objetividade na política social. A Saúde trocou de ministro, mas não tem proposta inovadora para enfrentar velhos problemas.

Aloysio Biondi: Os erros do FHC são escancarar o mercado, destruir as indústrias, os empregos, a imagem do Estado, do serviço público. Eles destruíram também a agricultura. Em 95, reduziram os preços para forçar a redução do plantio. O Brasil passa de maior exportador de algodão a segundo importador mundial. Mas o erro básico é a arrogância.

Momento: A reeleição é boa para o Brasil?

Miriam Leitão: O eleitor quer ter o direito de reeleger quem ele acha que está dando certo. De certa forma foi isto que o eleitor disse nas últimas eleições municipais quando votou em desconhecidos guiados pelos então prefeitos. Sobre a reeleição do presidente Fernando Henrique, é difícil dizer. Depende da sua proposta para o segundo mandato. Não acho que a continuidade do Plano Real dependa da reeleição.

Aloysio Biondi: Independentemente de se chamar FHC ou Antônio Carlos Magalhães, eu sempre fui pela alternância no poder. Quando um grupo político fica muito tempo no poder, e na ditadura a gente viu isso, a certeza de que quem vem em seguida é mero sucessor faz com que ele alargue muito a possibilidade de fraude, pois tem certeza da impunidade. O bom da democracia é a alternância do poder. Por isso sou contra a reeleição.

Momento: Qual sua opinião sobre a proposta de privatização da Petrobrás e do Banco do Brasil?

Miriam Leitão: Mais urgente que privatizar as duas empresas é acabar com velhos vícios: o calote institucionalizado no Banco do Brasil e o monopólio da Petrobrás. O monopólio, que acabou na lei mas não de fato, faz mal ao País e à empresa. O Banco do Brasil começa felizmente a cobrar suas dívidas. Há tanta empresa enfileirada para ser privatizada agora – todas as de energia, todas as de telecomunicações – que nem daria para tratar deste assunto agora.

Aloysio Biondi: Em primeiro lugar, o governo tem de ter uma política econômica e uma política agrícola com preço oficial. Todos os países têm um banco oficial para apoiar e ser o instrumento da política econômica do governo. Só aqui nós entramos nessa de que não se pode ter banco estadual. Sou totalmente contra a privatização. Quanto à Petrobrás, se você pegar os dados das reservas mundiais, não há petróleo nos países ricos.

Momento: O Proer consumiu em torno de R$ 15 bilhões. Se o risco é inerente à atividade econômica há justificativas para o Estado proteger o sistema financeiro?

Miriam Leitão: É fácil criticar o Proer. Quem gosta de aplausos, basta criticá-lo e esperar palmas. Difícil é admitir um fato simples e óbvio: o Proer protegeu basicamente o dinheiro do correntista. Se aqueles bancos fossem liquidados, milhões de brasileiros teriam seu dinheiro e seus investimentos destruídos. Os banqueiros que fraudaram o sistema, perderam seus bancos e se não estão na cadeia deve-se perguntar a razão à Justiça. O ajuste dos bancos públicos também custa caríssimo. Manter o Banco do Brasil aberto custou ao Tesouro R$ 8 bilhões. Você consegue imaginar o caos no País se o BB fosse fechado?

Aloysio Biondi: O Proer é um absurdo, além de ser um desrespeito aos direitos da sociedade, porque mais uma vez o Estado e o Tesouro assumem a chamada parte podre, que na verdade não existe. É como se a Rhodia, que tem a parte de fio e a de tecido, procurasse reduzir a produção de tecidos pagando os prejuízos com a parte lucrativa, a de fios. Mas no momento em que se fica com a parte podre não se paga prejuízo nenhum. Você transfere para o outro justamente a parte que poderia gerar renda e pagar o prejuízo acumulado. É aí que o Proer é um absurdo. Não é questão de deixar quebrar, é a forma como foi feito, mais uma vez.

Momento: O presidente Fernando Henrique disse que a miséria só poderá ser debelada a partir de 2010. É demagogia ou as ações do governo desenham mesmo esse horizonte?

Miriam Leitão: Demagogia seria dizer que se pode debelá-la agora. Mas o País pode ter metas mais ousadas. A miséria ainda existe mesmo em países desenvolvidos, porém não é possível mais conviver com indicadores vergonhosos como o de 18 milhões de brasileiros analfabetos. Só que eu estou convencida de que isto não é uma obrigação apenas do Governo. É do País inteiro.

Aloysio Biondi: E por que não em 2009 e oito meses? Quem é que vai estar aqui para cobrar essa previsão? Pois todo o patrimônio que pode gerar renda está sendo entregue a poucos frutos e toda a renda que ele pode gerar será desses poucos frutos. E todo mundo que está ficando de fora desse processo vai ficar cada vez mais pobre. É concentração de renda e de propriedade.

Momento: A mídia fecha os olhos para as mazelas de empresas privadas, é condescendente com o setor privado e impiedosa em relação às empresas estatais. Esse diagnóstico é correto?

Miriam Leitão: Corretíssimo. A imprensa aprendeu a analisar os defeitos, os prejuízos e a incompetência das empresas estatais, o que tem mesmo de fazer, porque é o dinheiro do contribuinte que está em jogo. Mas desastres de empresas privadas podem às vezes virar prejuízo público. Um exemplo: o Projeto Jari deve ao Banco do Brasil e ao BNDES. No começo dos anos 90, os controladores disseram, pela enésima vez, que estavam fazendo uma reestruturação na empresa e pediram mais dinheiro e a transformação de dívidas em ações. O BNDES concordou, o Banco do Brasil felizmente não. Agora, eles estão pedindo mais dinheiro ao setor público, usando como chantagem os empregos que o projeto representa. Há inúmeros exemplos de ineficiência das empresas privadas, mas a imprensa fala pouco disto. Nossa culpa!

Aloysio Biondi: A imprensa fez uma lavagem cerebral. Passou dois anos dizendo que o Estado era ineficiente, um cabide de emprego. Na verdade ela preparou tudo para a implantação da política de abertura de mercado e privatização. Aí nós assistimos passivamente o seguinte: o FHC vai a Curitiba e anuncia um empréstimo de 1 bilhão e 200 milhões do Banco Mundial. Depois o ministro Klein diz que a iniciativa privada vai gastar cerca de 100 milhões para obras complementares e pedágios. Ou seja, nós vamos pagar o empréstimo com o Banco Mundial e os caras que gastam um décimo disso vão explorar o pedágio. O Estado brasileiro não tem dinheiro por causa do pacto que existe entre nossos governantes e os grandes grupos econômicos. O problema é que a gente não tem memória.

Momento: Você concorda que a imprensa foi seduzida pelo presidente Fernando Henrique Cardoso?

Miriam Leitão: Não concordo, não. Quando senador ele sempre teve boas relações com os jornalistas. Ele conhece uma infinidade de jornalistas, chama-os pelo nome, lembra de entrevistas. Essas relações não foram revogadas só porque ele virou presidente. A maioria dos jornalistas é o que sempre foi: contra o governo. Qualquer governo. Agora, não dá para negar que conversar com Fernando Henrique é infinitamente mais agradável do que com qualquer outro presidente da história recente do País. Ele é inteligente e bem educado. E tem mais: ele não discrimina jornalistas que o criticam, como fazia o Itamar.

Aloysio Biondi: A imprensa foi totalmente seduzida pelo governo FHC. As pessoas se deixam influenciar pela vaidade quando o ministro diz que vai contar só para ele. No momento não estamos tendo discussão de nada, e coisas absurdas estão acontecendo. O FHC editou um decreto mandando o BNDES emprestar para multinacionais, até para privatizações. Isso era proibido. Na privatização da Cemig, o grupo que comprou ia dar a metade e a outra seria financiada pelo BNDES. E não foi nem isso. O BNDES financiou 75%. Tenho até um pouco de medo de parecer dinossauro quando todos querem parecer cosmopolita, globalizar.

Momento: Os últimos prejuízos do BB foram considerados, por diferentes grupos e/ou pessoas, como “operação saneamento”, “retirada de esqueleto do armário” ou ainda “manobras contábeis”. Qual sua opinião?

Miriam Leitão: É tudo junto. Só que não dava para não encarar os buracos no Banco e continuar publicando balanço falso. Foi mesmo a hora da verdade, mas é preciso garantir que os mesmos vícios não se repitam no futuro. O País não suportaria pagar outros R$ 8 bilhões.

Aloysio Biondi: A equipe de FHC anunciou um rombo de R$ 8 bilhões para o Banco do Brasil. Como esse “rombo” foi fabricado? A equipe de FH lançou como “prejuízos” e “créditos de liquidações duvidosas” bilhões de empréstimos concedidos pelo BB. A equipe quer manter a farsa da “quebra” do BB.

Momento: O sistema financeiro nacional precisa de bancos públicos?

Miriam Leitão: Sanear os bancos estaduais e federais custou agora ao País uma soma indescritível, insuportável. Mais de duas Vales do Rio Doce tiveram de ser depositadas no Banco do Brasil. O Banespa custou seis Vales. Só o passivo atuarial e trabalhista do Banerj custou uma Vale ao País. Os bancos públicos têm funções importantes num País desigual como este: o setor privado não vai às cidades pequenas e remotas, o setor privado nunca pensou em montar produtos como os bancos do povo, que financiam negócios da população de baixa renda. Este é o dilema: precisar deste trabalho, o País precisa, mas não pode correr o risco de ter de pagar o preço que está pagando.

Aloysio Biondi: Acredito totalmente. Quem conhece a história do Brasil sabe que todas as políticas de desenvolvimento sempre se basearam em bancos estaduais. O neoliberalismo diz que agora o mercado resolve tudo não há mais planejamento. Você antigamente dizia que o Vale do Ribeira era pobre, então criava-se um financiamento especial, uma assistência técnica. Você tinha instrumentos de política econômica para resolver problemas de distribuição de renda e problemas sociais. Os bancos públicos sempre tiveram esse papel. Aí alguns dizem que há empreguismo, mas com imprensa, partidos políticos, transparência e fiscalização, é possível combater distorções.

PERFIL

Miriam Leitão

Retrato: Nascida em Caratinga (MG), Miriam Leitão fez jornalismo na Universidade de Brasília e começou sua carreira como repórter no Espírito Santo, em 1972. Casada, Miriam tem dois filhos. Já trabalhou na Gazeta Mercantil, Veja, Jornal do Brasil, TV Manchete e O Estado de S.Paulo. Na coluna “Panorama Econômico”, do jornal O Globo, ela se firmou no primeiro time dos profissionais da imprensa.

O trabalho dos jornalistas no Brasil: Qualquer cidadão pode ficar furioso e dar sua opinião, mas o jornalista tem de agregar estudos, dados, horas de apuração para ajudar a formar opinião.

Sobre o próprio trabalho: Fujo do adjetivo fácil. Esculhambo, mas explico o porquê.

Aloysio Biondi

Retrato: Aloysio Biondi nasceu em Caconde (SP), tem 61 anos, é divorciado e pai de três filhos. Há 41 anos no mercado, Biondi tem uma formação essencialmente prática. Estudou dois anos de Sociologia e Política. Ganhou duas vezes o Prêmio Esso de Jornalismo, em 1967 e em 1971. Começou sua carreira na Folha de S.Paulo e trabalhou nas revistas Visão, Fator (fechada com o AI-5), Veja, Jornal do Comércio e Gazeta Mercantil.

O trabalho dos jornalistas no Brasil: O jornalismo corre um risco muito sério, que é o namoro com o poder. Se o ministro me der o telefone de sua casa é porque alguma coisa está errada.

Sobre o próprio trabalho: Sou contra jornalismo que faz lavagem cerebral nos leitores.



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