[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto

  Inflação “velha” vai melhorar os salários

quinta-feira 27 de outubro de 1983


O valor “verdadeiro” dos salários vai aumentar daqui para a frente, com a queda no ritmo da inflação já assegurada para o mês de novembro, e que pode acelerar-se de dezembro em diante (salvo os imprevistos de praxe). Além de melhorar a dramática situação financeira da população, essa nova tendência terá reflexos também sobre toda a economia, a médio prazo: com menos desgaste em seu poder de compra, os consumidores voltarão a movimentar o comércio e a industria, com efeitos encadeados dentro da economia, que tenderão a abrandar as perspectivas recessivas e o desemprego. Os próximos meses, assim, deverão acusar uma melhora gradativa nos negócios e no nível de emprego, frustrando as previsões de que “1984 será pior que 1983”.

Atenção: todas essas afirmações poderão parecer meras fantasias, quando for divulgada a inflação de novembro, já que embora a taxa inflacionária do mês vá cair para algo em torno de 8,5%, a taxa anual, que é a soma da inflação de doze meses, vai passar dos 200% – um recorde. As manchetes que a imprensa certamente dará, e o próprio noticiário de televisão falando desse número vão causar imensa confusão na cabeça das pessoas. Como se pode falar em “queda na inflação”, se a taxa anual continua subindo e batendo recordes? O mistério é facilmente explicável – e, ao que tudo indica, o governo vai desencadear uma campanha publicitária exatamente para demonstrar à opinião pública que a inflação está efetivamente caindo, e que aquele resultado de 200% reflete a “inflação velha” (de meses passados) e não a inflação “nova”, ou dos dias de hoje.

A INFLAÇÃO VELHA Para entender o mistério da “inflação velha”, tome-se como exemplo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor – INPC, utilizado para reajustar os salários (ele é um tipo de “termômetro” usado para medir a inflação enfrentada pelo consumidor, da mesma forma que o índice inflacionário da Fundação Getúlio Vargas é um tipo de “termômetro” usado para medir as altas de preços enfrentadas também pelas empresas, agricultura etc). É bom acompanhar o raciocínio através de “olhadas” na tabela desta página para entender o “mistério”. Também o INPC vai sofrer uma queda, para 7% ou 8% (na tabela, adotou-se esta última estimativa), em novembro. Apesar disso, no entanto, o INPC semestral, que era de 72,2% em outubro (utilizado para os reajustes salariais de dois meses depois, isto é, dezembro), vai subir para 76,16%. Como isso é possível? A tabela ajuda a entender o “mistério” facilmente: o INPC semestral, obviamente, é a soma da inflação de um período de seis meses que, no caso do INPC de novembro, vai de junho a novembro. Da mesma forma, o INPC de outubro (olhe a tabela) era a soma da inflação de abril a outubro. Assim, para calcular o INPC semestral de novembro, saiu o INPC mensal de outubro, que foi de 8,0%, muito maior do que o de maio (8,0% vs. 5,63%). Assim o INPC do semestre tinha mesmo que subir – apesar de, na realidade, o INPC mensal de novembro ter caído em relação ao de outubro.

Essa é uma distorção a que poucas pessoas dão atenção – e que é importantíssima no momento. Ela existe, também, em relação à inflação calculada pela Fundação Getúlio Vargas: a inflação “mensal” de novembro será de apenas 8%, contra 13,3% em outubro; apesar disso a inflação “anual”, soma da inflação de doze meses (dezembro de 1982 a novembro de 1983) vai crescer para mais de 200%, contra 197% em novembro. Por que? Porque a inflação anual em outubro (doze meses) incluía a inflação “mensal” de novembro deste ano. Como no caso do INPC, essa inflação de novembro é menor do que a do mês anterior, outubro de 83 – mas é maior do que a inflação “velha” de novembro de 1982.

OS RISCOS O fato de os índices anuais de inflação e semestrais do INPC serem a soma de inflações “velhas”, do passado, provoca distorções em cadeia dentro da economia – e traz riscos a empresas e consumidores. Uma empresa, ou um consumidor, pode, por exemplo, aceitar empréstimos para 1984 a taxas de juros elevadíssimas (caso do consumidor, no caso do crediário) por pensar que “a inflação continua em alta”, tanto que passou dos 200% – quando, na verdade, ela está em queda. O que acontecerá a essa empresa, no futuro? Ela aceita o empréstimo caríssimo por acreditar que, com “a inflação em alta”, seus preços também poderiam ser grandemente aumentados em 1984, isto é, seu faturamento cresceria o suficiente para pagar as prestações e os juros dos empréstimos. No entanto, com a inflação em queda, essa empresa faturará abaixo do previsto, isto é, não terá o dinheiro suficiente para atender àqueles compromissos (é por isso que, no momento, se aconselha as empresas a tomarem empréstimos somente com correção monetária pós-fixada, pois ela cairá junto com a inflação. Da mesma forma, o consumidor, deve fugir das compras pelo crediário).

A MELHORA SALARIAL Paradoxalmente a distorção da “inflação velha”, nestes próximos meses, vai ajudar a reduzir o desgaste do poder aquisitivo dos salários, permitindo que o consumidor compre mais. Isso graças à queda da inflação. Pois, quando a inflação estava em alta, o assalariado era ainda mais prejudicado. Como assim? Inflação em queda – O INPC de um mês, como se sabe, é usado para os reajustes de salários de dois meses à frente: assim, o índice de outubro foi usado para o reajuste dos salários de dezembro. Esse reajuste, de 72,2%, é a soma da inflação (ou do aumento do custo de vida do trabalhador) de maio a outubro, quando o ritmo inflacionário estava em alta (olhe a tabela). O trabalhador que receber 72,2% de aumento em dezembro vai ser beneficiado – daqui para a frente – porque, no mês de novembro, o aumento do custo de vida foi de apenas 8% (o INPC do mês), que representa menos de 10% dos 72,2%. Isto é, a inflação (ou aumento to custo de vida) engolirá apenas 10% do aumento de 72,2%, sobrando ainda 90% do reajuste, para os meses restantes.

Inflação em alta – Compare-se agora a situação desse trabalhador com a de outro, na época da inflação em alta. Veja-se o caso de um trabalhador com o reajuste salarial em agosto, baseado portanto no INPC de junho (dois meses de diferença), de 55,6% (olhe a tabela). Ao receber o reajuste salarial, em agosto, esse trabalhador já terá enfrentado uma alta de 12,63% no seu custo de vida (medido pelo INPC no mês de julho), equivalente a nada menos de 22,7% (quase um quarto!) do reajuste semestral de 55,6%. Em outras palavras, a inflação já terá engolido praticamente 25% do seu reajuste, deixando o equivalente a 3/4 dele para todo o semestre.

Em tempo: deixou-se para o final, propositalmente, uma referência ao decreto 2.065, de achatamento dos salários. É lógico que com esse achatamento – pouco sentido até a faixa salarial equivalente a oito salários mínimos –, o poder aquisitivo do consumidor será afetado. O que se está tentando mostrar, com a análise acima, é que a queda da inflação, combinada com a distorção da “inflação velha”, vai abrandar esse achatamento e seus efeitos negativos sobre o consumo.

Detalhe final: a queda de inflação também reduz o achatamento por outro caminho. Com um aumento de custo de vida (INPC) de 76%, um assalariado que – pelo 2.065 – tenha direito a um reajuste de apenas 50% do INPC, será reajustado (simplificadamente) em 38% (isto é, 50% de 76%), perdendo os outros 38% de seu poder aquisitivo. Com um aumento do custo de vida (INPC) de 50%, o “achatamento” será de 25% (isto é, 50% de 50%).



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