segunda-feira 1º de novembro de 1999
O real vai parar de cair, isto é, o dólar vai parar de subir, provocando aumento de preços, vale dizer, inflação? Manchetes otimistas dizem que agora tudo está sob controle, graças a novo acordo com o FMI que, tão bonzinho, permitiu que o Banco Central use mais reservas, isto é, venda mais dólares, para tentar segurar o real. É apenas nova armadilha para o Brasil. Basta destrinchar o acordo, para você ver que o governo FHC e o FMI continuam a ser cúmplices na destruição da economia brasileira. Vamos lá? Como você sabe, o real está despencando porque os banqueiros e investidores internacionais “fogem” do Brasil, prevendo um “calote”. De onde nasce essa previsão? É simples: o Brasil continua com dois “rombos” terríveis, a saber, o “rombo” do Tesouro, provocado pelas taxas de juros sobre a sua dívida aqui dentro e o “rombo” da falta de dólares, provocado pelas mesmas remessas de juros sobre a dívida lá fora, mais remessas de lucros, dividendos etc. das multinacionais.
Neste ano, até setembro, o “rombo” do Tesouro (na verdade, do “setor público”) já estava em R$ 110 bilhões, fazendo a dívida do governo crescer a cada mês, e passando da casa do meio trilhão, isto é, R$ 500 bilhões. Se você fizer a comparação entre esse “buraco” de R$ 110 milhões e o tal do PIB (isto é, o valor de todos os bens e serviços produzidos no País em um ano), estimado em uns R$ 800 bilhões, verá que o “rombo” é igual a uns 15% do PIB, ou cinco vezes maior que os 3% do PIB que os banqueiros e investidores acham suportável (para não haver “calote”). Tomou nota? Pois veja agora o descaramento do governo FHC e do FMI: um porta-voz do Ministério da Fazenda diz que no próximo ano o “rombo” vai cair para aqueles 3% e tudo ficará normal. Ora, você mesmo pode fazer as contas: 3% do PIB de R$ 800 bilhões seriam um “rombo” de apenas R$ 24 bilhões. No entanto, a dívida do governo só em títulos (“papagaios” vendidos no mercado financeiro) é de R$ 420 bilhões, e, com a “bola de neve” dos juros não ficaria – isto é, se tudo corresse muito bem – abaixo dos R$ 530 bilhões no final do próximo ano. Ora, o próprio acordo revisado com o FMI prevê que os juros, em 2000, ficarão na média em 15,5% que, aplicados sobre uma dívida também média de R$ 500 bilhões, significaria uns R$ 80 bilhões somente em juros... Ou uns 10% do PIB. Três vezes acima da previsão cor-de-rosa do FHC e do FMI.
Os banqueiros e credores internacionais sabem disso. Vão continuar fugindo, e o real continuará enfrentando crises. O governo brasileiro vai “torrar” reservas à toa. O presidente FHC e o FMI estão maquiavelicamente atolando o Brasil cada vez mais, adiando a explosão apenas para dar tempo de Brasília doar mais estatais, desnacionalizar ainda mais a economia. O Congresso não vê isso?