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  Em maio, sinais de recuperação

Jornal Gazeta Mercantil , sexta-feira 20 de junho de 1975


As vendas do comércio varejista de São Paulo cresceram 8,5% em termos reais (isto é, descontada a taxa de inflação do período) em relação a maio de 1974, invertendo a tendência declinante dos últimos meses. Esse resultado, fornecido pelo Clube dos Diretores Lojistas de São Paulo, foi acompanhado de idêntica recuperação no Rio de Janeiro, onde o movimento de vendas, em maio, cresceu 5,9% em termos reais. Há outros indicadores de uma melhora na situação econômica, que ganhara contornos preocupantes no primeiro quadrimestre do ano. Também em maio, o valor dos títulos protestados na capital paulista recuou de 234,3 milhões, em abril, para 192,1 milhões no último mês, com redução de 18% em termos nominais. Essa melhora na liquidez das empresas foi acompanhada, conforme divulgado anteriormente, pelo mesmo fenômeno na área do consumidor: segundo dados do Serviço Central de Proteção ao Crédito, nada menos de 30,8 mil prestamistas em atraso conseguiram liquidar seus débitos em maio último, o mais alto número de clientes do comércio “reabilitados” em um só mês, nos últimos três anos.

À melhora nas vendas e na liquidez, somam-se também dados positivos no setor industrial. A produção de aço cresceu 25% no último mês de maio, após vários meses de expansão insatisfatória ou mesmo declínios em relação a 1974. Finalmente, o consumo de energia elétrica em todo o país, segundo dados divulgados pela Eletrobrás, cresceu 9,5% até o mês de abril, revelando a manutenção do ritmo de crescimento em setores ou regiões específicas.

A visão unilateral

Todos esses dados parecem conflitantes com a atitude de pessimismo ainda presente em certos meios empresariais, retratado em pronunciamentos e reivindicações de suas entidades, em dias recentes. Análises dessa contradição poderiam explicá-la a partir de dois dados: a visão unilateral da evolução da economia, e o “clima psicológico” parcialmente decorrente dessa visão.

Grande parte das preocupações empresariais decorre, principalmente, das informações freqüentes sobre os problemas da indústria automobilística e da indústria de construção civil. O modesto crescimento, em torno de 5%, nas vendas de veículos, é um dado desconfortável para quem se habituara a taxas de crescimento superiores a 15% ao ano, não cabendo discutir se a retração do consumidor se deve a problemas reais de mercado ou, como afirmou ontem o ministro Mário Henrique Simonsen, a uma política de preços errada do setor (que aumentou mais intensamente os preços do veículo que, no seu entender, teriam maior procura, isto é, tinham mercado assegurado a qualquer nível de preço). Já para a indústria civil, há, segundo as entidades de classe do setor, problemas reais decorrentes das mudanças de governos estaduais, efetivadas em março último, e que acarretaram revisões de prioridades, com retardamento no início de obras novas. Mas há, também, nas reclamações da indústria de construção civil uma dose de inconformismo ante as novas diretrizes impostas pelo governo. Para as empreiteiras que se especializaram na construção de rodovias, a “guinada” em favor do transporte ferroviário surge como uma ameaça – muito embora somente a ferrovia São Paulo – Belo Horizonte represente contratos já assinados, acima de 8,0 bilhões de cruzeiros exclusivamente nas obras de engenharia, entregues a empreiteiras que já iniciaram suas atividades.

O silêncio revelador

O clima de pessimismo é alimentado, ainda, por outros dados, estes no terreno psicológico. Tradicionalmente, quando um setor enfrenta problemas, suas queixas figuram freqüentemente na imprensa. Quando a situação se modifica, há silêncio sobre a nova tendência (ao mesmo tempo em que outros setores podem, eventualmente, vir à cena, com suas queixas). Esse fenômeno fica claro no comportamento do comércio varejistas, sobretudo do Rio em abril, antes mesmo de apurados os dados definitivos sobre seu movimento de vendas, seus porta-vozes antecipavam previsões de “queda” para o mês. Os bons resultados de maio, com aumento de 5,9% nas vendas em termos reais, foram guardados em segredo até anteontem, quando os dados finais foram oficialmente divulgados.

Ainda no terreno psicológico, verifica-se a preocupação, unilateral, com o desempenho da economia paulista, ou, mais especificamente, com o desempenho da indústria no eixo Rio-São Paulo. Dados divulgados pela Light, por exemplo, revelam um crescimento de apenas 2,0% no consumo de energia elétrica para fins industriais nessa região. Mas os dados da Eletrobrás mostram que a própria região Sudeste, em que São Paulo se situa, acusou um avanço de 7,1% no consumo de energia (para todos os fins), e esse foi o resultado mais modesto entre todas as regiões do país. Realmente, em todas as demais regiões a expansão do consumo superou 15%: Sul e Nordeste, mais 17,3%; Centro-Oeste, 16,7%; e Nordeste 16,3% de aumento no período janeiro a abril deste ano em relação a igual período de 1974.

Perspectivas de junho

Todas essas tendências favoráveis poderão confirmar-se quando forem divulgadas as estatísticas relativas a junho, já que elas se manifestaram antes mesmo de que houvesse tempo para que surgissem os efeitos de medidas adotadas para reativar a economia. A melhora na liquidez das empresas, retratada a queda do valor e volume de títulos protestados, surgiu um mês depois das providências das autoridades monetárias para “injetarem” recursos na economia. A mesma defasagem caracterizará os estímulos dados à indústria automobilística (ampliação de prazo para compra de carros usados, para 36 meses) e indústria de construção civil (aumento do limite de financiamento de imóveis residenciais). E, finalmente, o “desendividamento” do consumidor e o aumento das vendas no varejo deverá acentuar-se com o pagamento dos novos níveis do salário mínimo, iniciado neste mês de junho, pois a reação já esboçada pode ser atribuída à melhora do poder aquisitivo de faixas da população graças aos novos níveis de reajustes salariais adotados desde janeiro último.



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