Jornal Gazeta Mercantil , sábado 10 de março de 1979
A agricultura brasileira não tem apresentado o crescimento que dela se esperava, nos últimos anos. Até hoje, o principal diagnóstico oficial para as causas dessa decepção era altamente sofisticado: necessidade de elevar o padrão tecnológico, com o uso de fertilizantes, defensivos, máquinas ou, ainda, devido à escassez de crédito, de recursos. Tudo, puro equívoco. A agricultura brasileira tem padecido de um único mal: os azares do mercado, o problema dos preços. Basta um ano de escassez e preços altos para a produção dar um salto no ano seguinte. Basta que esse salto se traduza em superprodução e queda de preços para, no outro ano, haver um recuo. Óbvio, elementar. Mas ignorado nos diagnósticos oficiais e na estatistiquice maniática que tomou conta do País. Manda a técnica estatística que nunca se comparem os dados de períodos curtos, de um ano para outro, para tentar analisar qualquer tendência da economia. Então, como a teoria é sempre respeitada, comparam-se dados da produção de um ano com as safras de cinco ou dez anos atrás e chega-se à triste conclusão de que "a produção só subiu 15% no período” com a "triste média anual na casa dos 3%”. Um fracasso? De raciocínio e de visão da realidade. Quando o confronto é feito ano a ano – para esse período de cinco, dez anos –, vai-se descobrir saltos de até 15% em um único ano e quedas de até 15% também em um único ano. Superprodução, preços baixos, escassez, preços altos – eis o quadro real.
Nada pode ser mais alentador, a esta altura, do que descobrir, em meio no sem-número de declarações que o novo ministro da Agricultura tem prestado à imprensa, a sua constatação, simples, objetiva, bem distanciada de posicionamentos teóricos de outrora, de que é preciso arrancar a agricultura brasileira dos ciclos periódicos de fartura e escassez em que ela está mergulhada. Como? Evitando as grandes altas e as grandes quedas de preços. Se o ministro Delfim Netto agora pensa assim, isso é excelente para o ministro da Fazenda, Carlos Rischbieter a quem caberá coordenar a luta contra a inflação. Fazenda e Agricultura podem deixar de andar as turras – como nos últimos anos – e fazer uma aliança contra a maldita montanha russa de preços dos produtos agrícolas, inclusive dos hortifrutigrangeiros, terrível foco de inflação nos últimos anos (ver artigo anterior, “A inflação que Rischbieter precisa enfrentar”, Gazeta Mercantil, 09/03/1979).
Em relação aos hortifrutigrangeiros, tem havido sistematicamente superprodução, que leva os produtores à não colher suas safras, seguida então de escassez e disparada de preços. Um esquema para enfrentar esse problema a curtíssimo prazo, já, imediatamente, poderia ser montado pelos dois ministério – se tiverem coragem de inovar:
Acompanhamento diário da situação da produção e preços – Hoje, a Cobal dispõe de uma rede de coleta de informações sobre o plantio, perspectivas de colheita, preços etc, nas diversas regiões. Só que esse amontoado de informações e dados não serve de nada: eles são utilizados para relatórios mensais, isto é, apensa engordam a coleção de estatísticas para o País. Quando o relatório surge, encerrado o mês, os preços do produto já dispararam (ou despencaram). Inês esta mortíssima.
Prevenção de sustos – Num esquema dinâmico, dois ou três funcionários, de confiança dos ministros, deveriam dissecar as informações à medida que elas chegassem à sede da Cobal. Com isso, seriam identificadas ameaças de escassez ou de sobras, antes que elas viessem realmente a ocorrer. E seria possível adotar medidas para impedi-las.
Colocação dos excedentes – Já que os excedentes geram escassez futura, é preciso ampliar, com rapidez, o mercado para eles. Aqui, seria preciso dizer adeus à ortodoxia. Sabido que está às portas uma grande safra de tomate, por exemplo (como ocorreu em dezembro), vários dispositivos seriam acionados para impedir o afundamento das cotações. Como medida clássica, a rápida concessão de crédito à indústria para sua industrialização. Mas ela não se aplicaria a todos os hortifrutigranjeiros. Então, como política de emergência, a alternativa seria montar esquemas de vendas não convencionais. Uma possibilidade: ambulantes às portas de fábricas, nas grandes capitais (essa venda não concorre, em absoluto, com o "comércio estabelecido": as vendas de emergência atingiriam um consumidor que normalmente não faria aquela compra. É o que ocorre com os vendedores, ou "marreteiros", de frutas e flores que procuram consumidores abordando os motoristas de automóveis, nas imediações dos sinais de trânsito das grandes capitais. As compras não estavam programadas pelo consumidor, são feitas na base do impulso. Representam, por isso, ampliação do mercado).
Ensinando a aproveitar – A injustamente criticada "campanha da pechincha", que tentou mobilizar o consumidor brasileiro contra a inflação, sugeria que o consumidor reduzisse suas compras de produtos em alta. Pode-se ser mais direto, mais objetivo, na época excedentes, com mensagens, ensinando a dona-de-casa transformar o produto que sobra em conservas, alimentos congelados, mostrando-lhe ser esse um caminho para dupla economia: graças a compra numa época de preços baixos e graças à possibilidade de lançar mão da "reserva", no período de alta que se seguirá.
Algumas dessas propostas, de tão ingênuas, podem fazer corar algumas bochechas tecnocráticas – governistas e oposicionistas – que preferem discutir a inflação brasileira em altíssimo nível teórico e empolado. Mas, por que levar em conta o rubor dos tecnocratas? Ele só mereceria respeito em uma ocasião: quando são divulgados os índices de inflação no País, a cada mês. Quando a ineficiência de suas teorias fica evidente.