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  Quando o empresário nacional sai de cena

Jornal Gazeta Mercantil , quarta-feira 13 de agosto de 1975


Grande movimentação de certas áreas empresariais, com encontros, homenagens e jantares, indicam que o debate – geralmente intramuros – em torno do modelo brasileiro de desenvolvimento voltou a intensificar-se. Crescem as pressões contra a criação do mercado interno, através de uma política de melhor distribuição da renda. Crescem as pressões a favor da volta ao “modelo aberto para o exterior”, vale dizer, da aceitação, pelo governo brasileiro, da presença do capital externo em áreas que, desde o ano passado, se resolveu reservar para o empresário nacional, fortalecendo-o. Pressões como as feitas para que a Krupp fosse autorizada a montar uma fábrica e produzir os mesmos equipamentos que a Bardella, a Villares, a Zanini. Para que a Toyo Soda produza solas de plástico, substituindo produtos nacionais. Para que grupos japoneses recebam mil vantagens para explorar o alumínio na Amazônia. Para que grupos internacionais ganhem incentivos e fiquem com o fosfato de Patos. Para que a U.S. Steel leve a parte de Leão no minério de ferro de Carajás. Para que a Philips compre a Consul. Para que grupos franceses, italianos, alemães passem a produzir, no país, usinas de açúcar, ou material ferroviário, ou metais, ou computadores.

Essas pressões ganharam certa força com os pronunciamentos partidos do Ministério da Fazenda, segundo os quais, além da inflação, o problema fundamental da economia brasileira está no balanço de pagamentos. Além da brutal dívida externa, também o crescimento das importações exige a “captação” de recursos no exterior, ou o crescimento econômico do país estará comprometido, dizem essas teses. Por quê? Porque é preciso importar equipamentos, materiais intermediários e componentes para permitir a produção, no país, de bens ainda importados.

Haveria um círculo vicioso na situação presente, em resumo: para equilibrar a balança comercial e o balanço de pagamentos, é preciso eliminar a importação de alguns bens. A montagem de fábricas com esse fim, no entanto, exige maiores importações, no curto e médio prazo, e, para pagá-las, o recurso é tentar obter recursos no exterior, sob a forma de empréstimos ou investimentos. Como os empréstimos, porém, engordam a dívida, já assustadora, resta o caminho de “atrair” o capital estrangeiro, a preços que a Nação, se consultada, certamente não concordaria em pagar.

Vale um dólar

Antes de “acreditar” que as dificuldades no balanço de pagamentos são reais, o Brasil precisa rever sua política de crescimento econômico. De alto a baixo. Questionar. Duvidar. Tentar enxergar o óbvio. É preciso indagar, por exemplo, se o país não tem uma crença mítica em que todo projeto novo é bom. E toda importação de máquina para um projeto é boa. Isso não existe. Máquinas também podem ser bens supérfluos, de compra adiável, se, para importá-las, é preciso agravar a penetração do capital estrangeiro e o conseqüente enfraquecimento do empresário nacional, em outras áreas. Os grandes projetos para exportação de minérios ou mesmo de bens industriais, por exemplo, não seriam uma armadilha? O país já percebeu que grande parte de seu endividamento externo e da necessidade de importações decorre desses projetos? Já tem consciência de que é esse um círculo vicioso real, isto é: importa-se mais, endivida-se mais, para implantar projetos que – talvez – lhe assegurarão alguns milhões de dólares a mais somente no futuro? Nem se alegue que tais projetos são necessários à manutenção do ritmo de crescimento. Para crescer, há outros caminhos que o país não explora.

É proibido crescer

É preciso ficar claro, claríssimo, que a opinião pública, e, dentro dela, a comunidade empresarial, foi habituada em todo o mundo a acreditar em mitos, na área econômica, dificultando a apreensão do que, de outra forma, seria óbvio.

Ainda no final da última semana, por exemplo o presidente da Comissão de Financiamento da Produção procurou explicar, aos agricultores, os fatores levados em consideração para a fixação dos preços mínimos para as próximas safras. Até críticas de que os preços para o arroz eram baixos, e desestimulariam o plantio, veio o arrazoado: “preço mais alto endossaria o estímulo (ao plantio) aos Estados Centrais; vamos impedir produção muito grande para salvaguardar o Rio Grande do Sul”. O leitor não deve esfregar os olhos, acreditando ser imaginação sua a expressão “pedir produção muito grande” por parte de um representante do governo. Na verdade, essa é a realidade na qual a Comissão de Financiamento da Produção, aliás, não tem culpa, já que sua única função é “dosar” a produção de acordo com a capacidade de absorção do mercado, que por sua vez depende da política econômica global do país. A verdade é que o país, sistematicamente, impede o crescimento da produção agrícola – e por extensão, industrial, embora nem sempre de forma tão clara, tão ostensiva quanto a exposta pela CFP. Essa, a realidade. Como são puras fantasias as discussões em torno de “tecnologia”, aumento de produtividade, modernização da agricultura e quejandos, tão freqüentes nos estudos da tecnoestrutura. Tudo balela. Cancele-se, porque na realidade é proibido plantar. O crescimento da agricultura depende do crescimento do mercado interno. Se isso for “para fora”, se o país deixar de acreditar nos “mitos” das vantagens do “modelo voltado para fora”, se o país deixar de proibir o plantio, a economia crescerá ainda mais rapidamente graças aos efeitos multiplicadores do aumento da renda no interior, nas mãos de milhões de produtores, e não de um pequeno contingente de empresas “voltadas para o exterior” e seus empregados. O PIB crescerá mais depressa. O país não se endividará. E o empresário nacional não sucumbirá de vez.



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