[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto
data
veiculo
tema
Palavra-chave
Voltar

  Os juros caem pela menor procura de crédito

Jornal Folha de S.Paulo , quinta-feira 19 de novembro de 1981


Há menor procura de crédito, nos bancos, e as taxas de juros já iniciaram o processo de queda, no País, indicando que os diretores financeiros de empresas (e consumidores) que aguardarem alguns dias para o fechamento de operações conseguirão um custo mais favorável na contratação de empréstimos. A afirmação se choca com as declarações feitas por dirigentes do mercado financeiro, nos últimos dias, segundo as quais somente para janeiro se poderia esperar um recuo para os juros. A verdade, porém, é que tais declarações podem ser consideradas uma tentativa, por parte do sistema financeiro, de fechar o maior número de contratos à altas taxas que vinham vigorando, antes que a queda se generalize.

Um dos mais fortes indicadores da nova tendência é a própria queda ocorrida nas taxas de juros pagas na captação, isto é, na venda de títulos de renda fixa, pelo mercado financeiro, ao longo dos últimos dez dias. Após terem alcançado recentemente o "pico" de 115% ao ano, os rendimentos pagos aos compradores de CDB (certificados de depósitos bancários) já oscilavam, ontem, na faixa dos 108% a 109% ao ano.

Ainda mais importante do que esse fator é o comportamento do Banco Central, na colocação de Letras do Tesouro Nacional (LTN) no mercado. Como se sabe, o principal argumento utilizado pelos bancos, nas últimas semanas, para não reduzir as taxas de juros, correspondia à afirmação de que as próprias autoridades monetárias vinham "puxando" o custo do dinheiro, ao pagar até 116% ao ano aos compradores (isto é, o próprio mercado financeiro) das Letras do Tesouro, em leilões "cartoriais", isto é, reservados para poucas instituições, que o Banco Central criou há meses. Esta semana, as taxas pagas aos compradores de LTN para prazos maiores de resgate sofreram ligeira queda e, segundo fontes do mercado, o Banco Central, ao contrário do que vinha fazendo há meses, quando procurava vender o maior volume de LTNs possível, atendeu a apenas uma parte dos pedidos dos compradores. Em outras palavras, o Banco Central procurou reduzir a colocação de títulos com rentabilidade exagerada – os 116% ao ano superam em 46% os 70% de Inflação que porta-vozes do governo vêm prevendo para 1962 –, num indício de que começará a oferecer títulos com juros mais baixos, daqui para a frente.

Para evitar problemas às instituições financeiras, a estratégia do Banco Central é combater uma queda multo rápida nas taxas de juros. Na interpretação das autoridades monetárias, se isso ocorresse, as instituições que pagaram taxas de 110 a 115% na captação enfrentariam problemas ao ter de emprestar dinheiro as empresas a um custo muito mais baixo que o atual. A lógica das autoridades monetárias, evidentemente, se preocupa apenas com os lucros do mercado financeiro – quando sua função seria preocupar-se principalmente com os prejuízos que as empresas sofrerão, ao contratarem empréstimos a 150 ou 170% ao ano, isto é, 80 a 90 pontos percentuais acima da inflação prevista para 1982.

Os esforços do Banco Central para evitar uma rápida queda das taxas de juros, neste momento, vão esbarrar em um fator que as autoridades monetárias e banqueiros não esperavam: a realidade do mercado. Segundo depoimentos de gerentes de agendas bancárias, entrevistados nos últimos dias, a procura de empréstimos pelas empresas está multo abaixo das previsões feitas para esta época. Confirmando as informações levantadas pela Federação do Comércio, o comércio varejista formou estoques de mercadorias relativamente modestos, para o final do ano, temeroso de enfrentar os mesmos problemas ocorridos no Natal do ano passado, quando a retração do consumidor provocou violento "encalhe" de mercadorias. O volume cauteloso de encomendas feitas pelo comércio reduziu também as necessidades de recursos por parte das indústrias – que, segundo dirigentes financeiros, já vinham adotando uma política de reduzir ao máximo o seu nível de endividamento, diante das altas taxas de juros cobradas pelo setor financeiro:

— A rápida queda da Inflação em outubro se repetirá em novembro, segundo os dados preliminares da FGV, que está estimando uma alta em torno de 5% no mês, contra quase 8% em novembro de 1980. Esse quadro novo levou os diretores financeiros de empresas a adiarem ao máximo a tomada de empréstimos, já que o custo real do dinheiro (isto é, a diferença entre os juros e a inflação) cresceu violentamente.

O fato, segundo os gerentes, é que desapareceram as "filas" de empresas à espera de empréstimos, provocando até uma Incômoda sobra de dinheiro em caixa – forçosamente canalizada para o open, o que mais cedo ou mais tarde provocará queda nas taxas em todo o mercado. Na sexta-feira que antecedeu o dia 10 – tradicionalmente de liquidez apertada, ante o pagamento de salários pelas empresas –, uma agência de bairro de um banco estatal tinha, por exemplo, quase 70 milhões de cruzeiros disponíveis, sem tomador.

A LIBOR TAMBÉM RECUA, PARA 13%
Aprofundando o violento processo de queda que contrariou todas as previsões aos economistas, as taxas de juros no mercado de eurodólares (libor), adotada na contratação dos empréstimos internacionais, atingiu ontem a casa dos 13%, isto é, 7 pontos percentuais abaixo do nível próximo dos 20%, cobrado no inicio do segundo semestre deste ano. Com esse recuo da libor, fortalece-se a tendência de queda dos juros também no mercado interno já que eles haviam sido elevados, por decisão das autoridades monetárias (criticada por economistas) exatamente para que superassem o custo dos empréstimos externos, forçando as empresas a buscar financiamentos em dólares (Resolução 63). Com a libor a 13%, o custo dos empréstimos externos cai para 126,35% ao ano, na hipótese de uma correção cambial de 80% nos próximos doze meses, e para apenas 113,77%, caso a correção cambial se limite a 70% - hipótese que parece mais provável, ante o rápido declínio da inflação brasileira. Eis os cálculos para chegar a esses resultados: 13% de Libor, mais 2,25% de "spread" (comissão dos banqueiros internacionais), mais 0,5% de diferença na compra e venda dos dólares (cobrada pelos bancos nacionais), mais 6% (média) da comissão dos bancos nacionais, e mais 4% de Imposto de Renda, resultando em 25,75% de custos. Aplicando-se, sobre esses custos, uma correção cambial de 80% ou de 70% (o que é feito multiplicando-se 125,75% por 1,80 ou por 1,70), chega-se àqueles custos totais.



Acompanhar a vida do site RSS 2.0 | Mapa do site | Administração | SPIP Esta obra está licenciada sob uma Licença CreativCommons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil