Jornal Folha de S.Paulo , sábado 27 de fevereiro de 1982
A Fundação Getúlio Vargas está reafirmando as previsões – que havia antecipado à Folha há dez dias -, de que a inflação provavelmente chegou à casa dos 7%, em fevereiro. Trata-se de um resultado inferior e aos 8,5% alcançados no segundo mês no ano passado, permitindo que a taxa anual de inflação volte a cair, de 94,7% acumulados até janeiro, para cerca de 92%, em fevereiro. Mas o índice de 7%, já elevado, supera ainda os 6,3% de janeiro último, dando margem a temores de que o País mergulhe em nova onde inflacionária, caracterizada pela remarcação generalizada de preços em todas as áreas.
Até o momento, no entanto, essa ameaça não se concretizou, conforme os resultados de pesquisa de preços cobrados em supermercados e confrontados com níveis de preços vigentes em fins de janeiro. A comparação mostra que ainda persiste a tendência já detectada em idêntica comparação realizada pela "Folha" há duas semanas, há saber, há predominância de produtos com preços estáveis, ou mesmo ligeiramente reduzidos, em relação às altas. A taxa inflacionária de 7% em fevereiro, portanto, decorre mais uma vez de aumento de preços isolados, para produtos ou serviços de preços "administrados", isto é, reajustados periodicamente pelo governo, como o leite ou derivados de petróleo.
E lógico que esses aumentos de preços, ao provocarem 7% de alta em um mês, realimentam a inflação através, por exemplo, da correção monetária, influenciando os custos em todas as áreas da economia. Pior seria, porém, se o País estivesse diante de uma clara retomada da inflação, provocada por remarcações generalizadas de preços, pois nesse caso a carestia voltaria a galopar, levando as novas medidas de contenção, por parte do governo.
AS ALTAS E BAIXAS
Dentro de um grupo de 17 produtos básicos pesquisados, apenas quatro apresentaram alta, de 29 de janeiro a 26 de fevereiro. Um segundo grupo, de 14 “outros produtos”, apresentou um desempenho pior, com oito altas. Ele concentra, exatamente, os produtos (ou derivados) preços administrados, ou que apresentam problemas conjunturais, neste começo de ano. Na primeira categoria estão as carnes, os laticínios e sobremesas, e mesmo os biscoitos (que, no entanto, não encareceram mais). No segundo caso, enquadra-se a carne de porco e produtos derivados (frios, presuntada, feijoada em lata etc). Como se sabe, os baixos preços obtidos pelos suinocultores em 1981 provocaram a dizimação dos rebanhos, desembocam-se em novo ciclo de escassez, este ano, com violenta alta de preços a partir de janeiro último (para alguns técnicos, a situação começará a notabilizar-se a partir de março).
Nos dois grupos de produtos, envolvendo 31 itens, houve, portanto, 12 altas de preços e 19 casos de estabilidade ou baixa. Há um detalhe bastante importante, que reafirma a inexistência de um movimento de remarcação generalizada: das 12 altas, oito ocorreram na segunda semana de fevereiro. Depois disso, os preços desses produtos permaneceram inalterados até ontem, dia 29. Das quatro altas restantes, pelo menos uma representa mera oscilação (óleo de milho), e somente três, finalmente, ocorreram na última semana de fevereiro. Delas, duas correspondem a produtos de limpeza, em que derivado de petróleo entra como matéria-prima, atingidos pelo reajuste dos preços do produto às vésperas do Carnaval.
O final de fevereiro acusou um comportamento favorável também para os preços dos hortifrutigranjeiros, deliberadamente não incluídos nas tabelas e respectivos cálculos, para não distorcerem (favoravelmente, aliás) as conclusões, já que se trata de produtos extremamente sujeitos a oscilações, nesta época de calor e chuvas. Em meados do mês, como já ocorrera em janeiro, legumes e verduras dobraram de preço durante alguns dias, devido a fortes chuvas na região da Capital. Mas, ontem, produtos como a couve ou o espinafre apresentavam preços normais (para a época), na mesma faixa do final de janeiro.
A taxa de inflação de fevereiro, assim, foi determinada pelos reajustes dos preços do petróleo e leite, ocorridos no próprio mês, e dos cigarros, tarifas de energia, água e telefone, em vigor desde janeiro mas incluídos também no índice de fevereiro - além do aumento de 60% no preço do trigo, no final de dezembro, e que só em fevereiro provocou o reajuste dos preços de produtos como macarrão. Como fator extra figurou - como ocorre todos os anos - o reajuste salarial dos trabalhadores na construção civil, no Rio, que se refletiu em alta de 15% no índice do setor (incluído nos cálculos do índice da inflação).
VIDA SUBIU 6,2% EM JANEIRO
O ano começou com maior aumento do custo de vida verificado nos últimos cinco meses, segundo pesquisa divulgada ontem pelo Departamento Intersindical de Estáticas e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese). Ele foi de 6,2%, valor superior, inclusive, à média registrada durante todo o ano de 1981, que foi de 5,4%. No mesmo mês, a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, da USP, registrou um aumento de 3,94% em São Paulo.
Os itens que mais subiram foram educação e cultura (22,8%), recreação e fumo (22,1%), higiene pessoal (6,9%) e habitação (6,3%). Os alimentos subiram 5,5% sendo que os preços do peixe aumentaram 13,1%; os artigos de sobremesa 8,8%; e as refeições avulsas 8,4%.
Com o aumento verificado em janeiro, o índice do custo de vida acumulado em 12 meses (de janeiro de 81 a janeiro de 82) é de 89,5%. Nesse período, recreação e fumo subiram 193,4%; educação e cultura, 132,1%; higiene pessoal, 120,4%; e saúde 110,6%. Os preços dos medicamentos praticamente triplicaram em 12 meses, subindo 199,9%. Já os alimentos apresentaram um crescimento anual abaixo do custo de vida, atingindo 78,1%, enquanto alguns grupos de produtos desse item subiram mais que o custo de vida, como as bebidas (144,3%); frutas (121,8%); artigos de sobremesa, (121,4%); e gorduras e condimentos (101,1%).