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  Nem tudo que é `populismo´ traz ameaça

Jornal Folha de S.Paulo , domingo 27 de dezembro de 1992


Várias perguntas têm de ser respondidas pelo governo de Itamar Franco para que 1993 seja melhor que 92

Final de ano, época propícia para uma avaliação serena dos riscos, tanto os reais quanto os imaginários, que as diretrizes?”populistas” do governo Itamar estariam trazendo à economia e à sociedade brasileira. Algumas questões precisam ficar esclarecidas desde já, para que o ano de 1993 se inicie com melhor definição das perspectivas do Brasil. Entre as questões a responder: não há mesmo dinheiro para atacar os problemas sociais? O populismo apenas aumentará o “rombo” do Tesouro e com isso, acabará provocando mais inflação e recessão, isto é, sacrificando o “povão” que se pretende ir socorrer? É populismo tentar aumentar os salários sem antes aumentar a produtividade, pois isso só encarece os custos das empresas e provoca mais inflação? O populismo do governo Itamar já está assustando os banqueiros internacionais? É verdade que, por isso, a entrada de dólares no país, que vinha batendo recordes, acusou forte queda em dezembro?

Nos últimos anos, insistiu-se em proclamar as vantagens do México e, depois, Argentina, em relação ao Brasil. Nessas análises, o Brasil não receberia um centavo do mercado financeiro internacional se não adotasse integralmente a mesma política daqueles países. Na verdade, isso é mito. Recente reunião de banqueiros internacionais, segundo narrativa da “Gazeta Mercantil”, mostrou que, a esta altura, o Brasil é muito mais atraente para os banqueiros internacionais, do que Argentina e México. Por que? O Brasil tem um saldo gigantesco na balança comercial de cerca de US$ 15 bilhões por ano. O México, ao contrário, está com um saldo negativo gigantesco, nessa mesma faixa. Vale dizer: os banqueiros não são tolos, e querem emprestar a quem tem condições de pagar. Essa é uma verdade freqüentemente escondida da opinião pública brasileira. Negociar de igual para igual com os credores não é uma questão de “nacionalismo”, mas de matemática.

Presidentes de entidades empresariais prestam um desserviço ao país quando continuam a afirmar que o governo gasta mais do que arrecada e por isso tem que emitir dinheiro ou títulos, endividando-se, o que traz a inflação. O governo cortou brutalmente despesas, em 1991 e 1992. Por que emitiu? Por um motivo que o cidadão comum dificilmente consegue entender: para comprar os dólares que, como verdadeira enxurrada, entraram no País. O problema brasileiro hoje não é de falta de dólares, mas de sobra de dólares. Por isso o governo até já tomou providências para reduzir esse ingresso de divisas. Assim, não é o “populismo” que represará a “enxurrada” e nem isso é ruim.

Afirma-se insistentemente que não existiriam recursos para atender às necessidades básicas da população. Onde está o dinheiro? – pergunta-se Ora, até parece que analistas brasileiros esqueceram de que nem mesmo é preciso “inventar” dinheiro novo, para atacar os problemas sociais. É tudo uma questão de prioridades da política econômica, uma questão de recanalisar o uso do dinheiro público. Exemplos? O álcool usado pelos automóveis está sendo vendido com prejuízo (cerca de US$ 700 milhões por ano), coberto com um aumento desnecessário do preço do óleo diesel, pago pelos trabalhadores pobres que andam de ônibus. Na área de impostos, um exemplo recente: os governos reduziram a cobrança sobre automóveis, para barateá-los. Um governo preocupado com a maioria da população reduzirá impostos sobre bens de consumo popular, como roupas, tecidos, calçados, remédios, móveis, alimentos. Isso não é “populismo”. É uma política econômica voltada para a maioria.

Já na recessão do começo dos anos 80 a produtividade na indústria duplicou, segundo estudos que a Fiesp sonega. De lá para cá, a despesa de mão-de-obra continuou, e os salários sofreram novos recuos com os “choques”. Vale dizer: cresceu violentamente a produtividade. É incrível que líderes empresariais e analistas ainda digam que reajustes de salários a cada dois meses serão inflacionários e “ilusórios”, e que é preciso esperar o aumento da produtividade para melhorar os salários.

Sem Recessão

Os empresários pediram o fim da recessão e o governo atendeu: a economia desembocou em violenta crise, porque a dívida externa explodiu. Isso realmente aconteceu no começo dos anos 80. Mas a decisão do governo Itamar, de pôr um final à recessão, não traz o mesmo risco, porque a economia brasileira mudou completamente. E hoje tem grandes saldos na balança comercial (ver tabela). Só falta um acordo com os empresários, contra a remarcação de preços, inflacionária.

Prioridade?

O governo paulista vai gastar US$ 650 milhões de dólares em pequeno trecho de metrô: seis quilômetros até Pinheiros. Quase o mesmo custo por quilometro do hoje célebre metrô Paulista. Nada melhor para o povo.

Lesa-Pátria

Nas últimas sessões do ano, o Congresso aprovou o parcelamento de dívidas das estatais, que terá até 20 anos para pagar à Previdência. Valor: Cr$ 35 trilhões, quanto vai dar por mês? Menos de Cr$ 150 bilhões. Escândalo.

Rombo Menor

O governo previa aumento de 42% nos gastos com o funcionalismo em novembro, por causa da isonomia salarial. O acréscimo ficou nos 34%. E só o combate à sonegação rendeu Cr$ 32 trilhões nos dez primeiros meses.

Inflação

Ao menos no varejo paulista, o aumento do consumo não provocou explosão de preços. Na terceira semana de dezembro, a alta foi de 5,95%,a cumulando variação quadrimestral de 23,26%. Bom para taxa de janeiro.



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