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  E a Vale ‘‘pifou’’...

Jornal Diário Popular , domingo 19 de março de 2000


A Vale do Rio Doce publicou anúncios de página inteira nos jornais de todo o País afirmando que bateu ‘‘novos recordes’’ em 1999. É mentira. Os jornais e a TV divulgaram entrevistas de seus diretores, falando dos ‘‘êxitos’’, e aquela ladainha toda de que a Vale é ‘‘um exemplo da vantagem da venda de empresas estatais a grupos privados, que são mais eficientes, além de serem preocupados com programas sociais e o meio ambiente etc e tal’’. Tudo mentira, que pode ser facilmente desmascarada. Para apurar a verdade, basta examinar o balanço da Vale do Rio Doce, publicado na imprensa (DCI - Diário Comércio & Indústria, 1º de março de 2000). Ele traz os seguintes dados e fatos, capazes de mostrar que a Vale do Rio Doce, uma empresa gigantesca que avançava sempre quando era estatal, ganhando destaque no mundo, agora deu uma ‘‘pifada’’, perdeu terreno e vapor:

Exportações — Recuaram US$ 400 milhões, ou 15%, de US$ 2,66 bilhões para US$ 2,27 bilhões. Problemas de preços internacionais? Falso. A quantidade exportada caiu de 62,3 para 59,6 milhões de toneladas (para comparação: as exportações de cobre do Chile cresceram 6% no ano passado).

Produção — Como o próprio balanço destaca, houve queda na quantidade produzida ou movimentada em todas as áreas: manganês extraído, menos 17%; ouro, menos 5%; potássio, menos 10%. Nas demais áreas da Vale e suas empresas subsidiárias, houve recuo de 12% para a Docenave (transporte marítimo), de 32,5 para 28,5 milhões de toneladas; para o transporte ferroviário, de 66,5 para 60,5 milhões de toneladas, ou 10%; e para os serviços portuários, de 5%. Únicas áreas em que houve aumento de produção: alumínio, aço, papel e celulose.

O anúncio da Vale do Rio Doce, ao falar em ‘‘novos recordes’’, mente descaradamente, esconde todos esses recuos. Ele só diz a verdade, que na verdade é uma falsa verdade, em um ponto: os lucros da empresa, estes sim, bateram novos recordes, chegando a R$ 1,15 bilhão. Como explicar esse ‘‘milagre’’, de produzir menos, exportar menos e lucrar mais?

Eficiência? Capacidade administrativa? Mentira-piada. Pura e simplesmente, o que o anúncio não diz, a Vale deu uma ‘‘pifada’’, e mesmo assim lucrou mais, porque os produtos exportados são pagos em dólar e, com o real despencando em janeiro, a empresa recebeu muito mais reais em troca de seus dólares no ano passado (há outros macetes nos lucros, que esta coluna mostrará amanhã). Isto é, os de-formadores de opinião e os basbaques neoliberais esconderam que os lucros da Vale só cresceram graças à desvalorização do Real. Para encerrar, duas perguntinhas. O anúncio da Vale engana o público, mente. O Conar, organismo que deve zelar da ética na propaganda, não vai obrigá-la a publicar um novo anúncio, do mesmo tamanho, retratando-se? Além disso: a Vale tem ações cotadas nas Bolsas de Valores, e seu anúncio também engana o investidor. A Comissão de Valores Mobiliários, que deveria ser o ‘‘xerife’’ do mercado de ações, não vai fazer nada?



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