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  EUA: maior crescimento sem inflação

Jornal Gazeta Mercantil , sábado 20 de setembro de 1975


O crescimento econômico dos EUA está se processando “a uma taxa extraordinariamente alta”, e “os dados preliminares sugerem que o Produto Nacional Bruto americano subirá a uma taxa anual de 6% no terceiro trimestre”. Com essas afirmações, a equipe de economistas do First National City Bank cancelou suas previsões anteriores – marcadas pelo pessimismo que vem sendo a tônica das análises sobre a economia mundial desde 1973 –, e que previam a recuperação econômica norte-americana somente para o próximo ano. O cancelamento das previsões pessimistas, no caso do City Bank, é atribuído a uma revisão de estimativas anteriores, e que acusou substancial redução nos estoques, ocorrida ainda no primeiro semestre do ano, e só agora detectada; além do mais, “tanto as exportações como o consumo pessoal têm subido nestes últimos três meses”, acelerando a recuperação.

Os dados positivos sobre a economia norte-americana, na verdade, vêm se repetindo já há quatro ou cinco meses, sem nunca conseguirem modificar a tendência de análises pessimistas, para as quais a chamada “crise mundial” iria transformar-se em uma nova “Grande Depressão”, igual à dos anos trinta. Mesmo organizações de vasta tradição na área econômica parecem ter sido levadas ao pessimismo – como a McGraw-Hill, por exemplo, que lançou previsões sombrias em seu relatório anual sobre “as perspectivas da economia”.

A menor inflação em três anos

À medida que vários indicadores econômicos acusavam melhores resultados as opiniões a favor da “crise mundial” passaram a apontar outras ameaças. Entre elas a repetida com maior freqüência correspondia à alternativa de que, tão logo a economia entrasse em recuperação, a inflação dispararia de novo. Essa corrente parecia vitoriosa, com a alta de preços ao consumidor (que “mede” a inflação nos EUA) registrada em julho, da ordem de 1,2%, após vários meses de taxa inflacionária baixa, em torno de 0,5%. O “salto”, no entanto, fora praticamente acidental, pesando fortemente, no cálculo do índice, o violento aumento nos preços dos alimentos em função de reajustes para a carne, e, ainda para cereais em geral, diante dos rumores sobre as grandes vendas à União Soviética, afinal concretizadas. A “vitória” das análises pessimistas, no entanto, durou pouco; também no final de semana, foi oficialmente anunciado o índice de aumento de preços ao consumidor durante agosto, registrando apenas 0,2%, isto é, a menor taxa inflacionária mensal dos últimos três anos. Da mesma forma que os alimentos haviam contribuído para a alta de julho, foram eles também que proporcionaram o êxito de agosto, devido ao recuo nos preços da carne (ante a reação do consumidor) e queda ou estabilidade para outros alimentos. Esgotado o “filão” pessimista da recessão, tudo indica que os analistas econômicos vão concentrar-se numa legada falta de capitais, ou poupanças, nos EUA, para os investimentos das empresas. Prevê-se um estrangulamento nessa área, com projeções fantásticas de recursos, já refutadas por economistas como Walter Heiler, ex-assessor da Casa Branca (tem artigos no “Wall Street Journal”, reproduzidos por este jornal).

Outros dados positivos da economia norte-americana liberados na última semana apontam que a produção industrial norte-americana experimentou em agosto o seu maior aumento em três anos, com aproximadamente 1,2% de avanço, além de acusar expansão pelo quarto mês consecutivo. Além disso:

- As vendas do comércio varejista, na segunda semana de setembro, acusavam um avanço de 7% em relação à mesma semana do ano passado.

- A renda pessoal acusou aumento de 1,5% em agosto.

- Os lucros das empresas acusaram aumento de 12,1% bilhões de dólares no segundo trimestre, contra um declínio de 30,0 bilhões de dólares no primeiro trimestre.

- A indústria de construção manteve seu ritmo de reativação, com uma taxa anual de início de novas habitações da ordem de 1.250.000 em agosto, com acréscimo de 21.000 unidades sobre a taxa de julho.

PESSIMISMO

O pessimismo em torno da recuperação da economia norte-americana e, mesmo, mundial, foi alimentado inclusive pelo próprio governo dos EUA, que, ao lançar seu plano contra a inflação, previu avanços modestos e moderados, tanto na política de contenção de preços, quanto para a recuperação econômica. A timidez do governo norte-americano – que lhe valeu uma “tempestade” de críticas nos EUA – pode ser atribuída a diversas razões de ordem tática:

- No plano interno, motivou a população norte-americana a empenhar-se na luta contra a inflação e na economia de combustíveis, reduzindo os gastos com petróleo e, por extensão, os problemas do dólar.

- No plano mundial, abriu caminho para uma atitude tolerante, por parte dos demais países industrializados, em relação à política deliberada de “desvalorização indireta” do dólar, e que levou ao crescimento das exportações norte-americanas – e atual fortalecimento do dólar.

- No plano mundial, ainda, manteve o clima de pessimismo e temor a uma “catástrofe mundial”, freqüentemente interpretada como resultado dos aumentos dos preços do petróleo por parte da OPEP. A manutenção dessa crença, evidentemente, reforça o poder de barganha de Washington na mesa de negociações com os países produtores de petróleo.



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