Jornal Diário Popular , segunda-feira 26 de junho de 2000
Nem sempre os fatos que podem mudar a vida da humanidade ganham imediatamente as manchetes dos meios de comunicação. Neste exato momento, a história se repete: após dominar o mundo ao longo dos últimos anos, provocando uma avalanche de desemprego e lançando centenas de milhões de pessoas na miséria, o chamado ‘‘neoliberalismo’’ foi destronado. Como esta coluna registrou ontem, os presidentes dos países ricos, reunidos em Berlim no começo do mês, firmaram acordo para uma ‘‘virada’’ histórica, ressuscitando as políticas enterradas pela chamada ‘‘onda neoliberal’’, segundo as quais é dever dos governos dar atenção aos problemas sociais. Ou, em poucas palavras, o Estado, o governo, não deve esperar que ‘‘o mercado’’ resolva todos os problemas da economia e, sim, adotar políticas que criem empregos, permitam às populações pobres terem acesso a serviços e assim por diante. Essa ‘‘virada’’ é uma surpresa? Nasceu da noite para o dia? Não. Na verdade, outros fatos de importância histórica abriram caminho para que ela acontecesse — fatos, aliás, que também não ganharam destaque à época em que ocorreram. Eis um rápido resumo:
Europa — ao longo dos últimos nos, os partidos de esquerda foram vencendo as eleições — inclusive para presidente — dos principais países europeus. Esse quadro, de domínio de partidos socialistas, que rejeitam a falta de medidas contra o desemprego e outras teses dos neoliberais, se completou no final de 1998, com a vitória na Alemanha.
O Euro — o predomínio de governos socialistas facilitou o lançamento de uma moeda única, o euro, em janeiro do ano passado.
Os EUA — há décadas, como esta coluna apontou muitas vezes, os EUA vinham mantendo a liderança absoluta no mundo graças a um fato totalmente ilógico. Qual? Os EUA sempre realizaram importações com valor muito acima de suas exportações, isto é, tinham um ‘‘rombo’’ na balança comercial.
A ‘‘virada’’ — nos últimos dois anos, o ‘‘rombo’’ norte-americano disparou, e chega a US$ 30 bilhões por mês. Ao mesmo tempo, a Europa seguiu na direção oposta, com saldos positivos (exportações acima das importações) de mais de US$ 100 bilhões por ano, em conjunto. Isto é, o euro vai avançando como moeda ‘‘forte’’ — e cada vez fica mais difícil evitar a desvalorização do dólar. Em resumo: o poderio econômico da Europa cresceu, os problemas dos EUA continuaram a avançar. A Europa passa a dividir com os EUA a liderança econômica mundial, e o euro ameaça o dólar. Essa nova divisão do poder explica a ‘‘virada’’ contra o neoliberalismo, permitindo enfrentar problemas sociais como o desemprego. Ela merece foguetes.