Jornal Gazeta Mercantil , sexta-feira 30 de março de 1979
A disparada de preços em março levará o governo a ações drásticas, policialescas mesmo, tidas como necessárias, a essa altura, para obter um impacto psicológico que leve a sociedade brasileira a rever a sua complacência com a inflação. A nova dinâmica da máquina oficial, contudo, não pode e não deve resumir-se a iniciativas punitivas — pois elas não removem problemas reais que existem em algumas áreas, sobretudo no setor de abastecimento. Tais problemas só somente poderão ser superados ou seus efeitos minimizados, desde que acompanhados muito de perto por grupos de técnicos de confiança dos ministros da Fazenda e da Agricultura, que se incumbam de, pacientemente, coordenar tarefas aparentemente menores, mas que podem assegurar o ganho de alguns pontos na luta contra a inflação. Há, nesse momento, tentativas de especulação, ou altas já excessivas, para alguns produtos essenciais: feijão, milho, carne, carne suína, óleo de sujo e cebola. Basicamente, as justificativas invocadas para a alta de preços seriam as quebras de safras resultantes da seca do Sul e das inundações do Vale do São Francisco. Tais quebras não foram dramáticas, mas a especulação já pôs a cabeça para fora. Por quê? Segundo apontou recentemente o ministro Delfim Netto, chegou a uma situação paradoxal no País: os preços só mantém a relativa estabilidade ou sobem de “forma aceitável”, quando há excedente de produção. Basta que haja equilíbrio entre a oferta e a procura, para que os preços disparem incrivelmente. A carne é um exemplo dramático, desse fenômeno: no ano passado os abates de bovinos caíram apenas 12%, apesar de toda a “onda” de crise criada pelos pecuaristas. E bastou esses 12% para que os preços subissem 90%, em 1978, e ultrapassassem os 100%, neste começo de 1979. Ante essa tendência, o que fazer em relação a cada um daqueles produtos? Antes de mais nada, seria essencial convidar alguns técnicos da área agrícola a explicarem as razões que os levam, periodicamente, a divulgar previsões de "quebras" (o que está correto), sem enfatizar que elas são modestas e não devem ter maior efeito sobre os preços (o que tem aberto, sempre, o caminho para a especulação). Como orientação específica para cada um dos produtos críticos, há muito a fazer:
Milho — Fala-se em quebra de safra e na necessidade de importar, talvez, 1,0 milhão de toneladas do produto. Ora, mesmo com a quebra, a produção será de 2,0 a 2,5 milhões de toneladas superior à do ano passado. Seria muito interessante que o ministro da Fazenda – ou do Planejamento – verificassem direitinho se as estimativas de consumo não estão superdimensionadas – como ocorreu no ano passado (basta pesquisar as previsões de importações que foram feitas no primeiro semestre e as compras efetivamente realizadas no exterior). Mesmo que as estimativas pareçam corretas, é bom lembrar é bom lembrar que as perspectivas de escassez levam os criadores (que compram milho e seus derivados para alimentar seus rebanhos) a lançar mão de substitutivos (abóbora, mandioca, batata-doce etc.), de que não cogitariam em épocas de abundância. Assim, o consumo tende a retrair-se, estreitando a faixa de escassez. Mas é exatamente em relação aos substitutivos que uma atitude dinâmica da máquina oficial pode minimizar as pressões altistas. Há tempo para assinar convênios com associações de criadores e cooperativas, incumbindo-as de realizar campanhas para o plantio das chamadas forrageiras de inverno, que podem substituir o milho no arraçoamento do animal. Isso é tudo? Não. O bom senso que o ministro Rischbieter vem mostrando em tantas áreas deve estender-se também ao problema da suinocultura brasileira, onde a mentalidade tecnocrática cometeu, no último ano um dos maiores crimes de lesa-Nação de todos os tempos. A pretexto do combater a "peste suína’’, proibiu-se o uso de lavagem", restos de comida sobretudo de hotéis e restaurantes do interior, na alimentação de suínos. Num país paupérrimo, obriga-se o produtor a lançar mão de milho e rações (ou deixar atividade), encarecendo o custo do produto para o consumidor e oficializando o desperdício de sobras (que custaram bilhões para ser produzidas) que poderiam ser "recicladas". Não há riscos na volta ao emprego da "lavagem"? O ministro convoque sanitaristas e técnicos — de sua confiança — e receberá como resposta que basta fervê-la, para que ela se transforme em alimento puro (sem falar no óbvio: a "onda" da peste suína terminou. Misteriosamente. Depois de ter desorganizado a produção e suprimido uma fonte de renda de milhares de famílias brasileiras, paupérrimas em sua maioria). Mais substitutivos — Além da volta da "lavagem", do incentivo às forrageiras de inverno, há um substitutivo para o milho que está sendo esquecido: a cana-de-açúcar e seus derivados (uréia, melaço). Há super-produção de cana, neste momento: bastaria montar esquemas, também com cooperativas e associações para utilizar excedentes na alimentação animal.
Feijão e carne — Para o primeiro, a “escassez” é ridícula: fala-se em um déficit de 100 mil toneladas, para um consumo de 2,3 milhões de toneladas. Para a carne, o problema é mais complicado: os pecuaristas afirmam que houve abate de matrizes e não há gado disponível para atender ao consumo. O tempo vai mostrar se isso é verdade. Mas o fato é que a carne subiu 1.000% desde 1974 — enquanto os demais alimentos subiram de 200 a 400%. O problema tem de ser enfrentado pelo lado da demanda e da oferta. Em outros países, houve racionamento, com restaurantes servindo carne em dias alternados da semana. Não é preciso chegar a isso, mas campanhas convidando a dona-de-casa a reduzir o consumo seriam um legítimo instrumento para equilibrar o mercado. Do lado da oferta, fala-se sempre em ampliar a produção de suínos e aves – mas como planos remotos distantes. Tendo em vista que o ciclo de produção para esses substitutivos extremamente curto, bastaria um programa especial (sempre em coordenação com cooperativas) para que a oferta crescesse rapidamente. E para que, amanhã, não haja excedentes e produtores arruinados (como ocorre periodicamente para a suinocultura e avicultura), é preciso desengavetar os projetos de frigorificação previstos para o setor. E o óleo de soja? A indústria quer vender, aqui dentro aos preços, do mercado internacional. Sem comentários.