[O Brasil de Aloysio Biondi Obra Vida Projeto

  Um dilema para o presidente

quarta-feira 31 de julho de 1991


Nas últimas semanas, a equipe econômica acelerou fortemente o processo de descongelamento dos preços. Diariamente, lá vem a notícia: tais e tais setores passam a ter preços liberados, e tais e tais setores deixam de ter preços controlados, para passarem a ser meramente monitorados (reajustes meramente comunicados ao governo). Ainda assim, a taxa de inflação permanece estabilizada, o que significa que (atenção), matematicamente, ela deveria cair nas próximas semanas. Como assim? Passado o impacto dos reajustes de preços destinados a cobrir pretensas “defasagens”, não haveria pretexto para novas altas substanciais – e a taxa tenderia a cair. Do ponto de vista lógico, assim, o declínio da inflação estaria assegurado, já que, mesmo com o descongelamento, a taxa apurada pela Fipe em São Paulo, na segunda semana de julho, contrariou todas as previsões pessimistas e fixou-se em 10,72%, apenas 0,02% acima dos 10,70% apurados na primeira semana do mês. Mas a lógica raramente conta, em um país maltratado há décadas pela inflação e seus ciclos de alta. E o pior já aconteceu: indiferentes ao fato de suas previsões pessimistas para abril, maio, junho e julho não se confirmarem, e indiferentes às próprias estatísticas que apontam a possibilidade de queda da inflação, economistas e lideranças empresariais começam a falar, publicamente, na “inevitabilidade” de um novo congelamento para os próximos meses. Qualquer brasileiro sabe, com base na experiência dos últimos anos, o que tende a acontecer daqui para frente. O temor de um novo congelamento leva as empresas a reajustarem violentamente seus preços, fazendo as taxas de inflação explodirem literalmente, e forçando o governo, aí sim, a adotar um novo “choque”. O governo, ou mais especificamente o presidente Collor, não pode deixar que isso volte a acontecer no país, pois tanto a explosão da inflação quanto os efeitos de um novo choque representariam novas perdas brutais para a sociedade brasileira. O presidente da República, com os novos rumores de congelamento, foi colocado diante de uma encruzilhada, e vai ter que fazer uma opção imediatamente. Primeiro caminho: o próprio presidente desmente o congelamento, em pronunciamento à Nação (o empenho pessoal do presidente é necessário porque os desmentidos de ministros não merecem crédito, pelo fato puro e simples de que se acredita ser essa a sua obrigação: desmentir, e depois adotar). Não seria apenas um desmentido, óbvio. O presidente deixaria claro que o governo não repetirá a experiência de congelamentos, mas em contrapartida, se a remarcação de preços for desencadeada, adotará uma política violentamente recessiva. Em outras palavras, deixará claro para a Nação que uma nova recessão será de responsabilidade dos empresários, por força de seu comportamento inconseqüente. O segundo caminho que se abre ao presidente da República é adotar imediatamente o congelamento, neste momento em que as taxas de inflação estão na casa dos 10%, e a maioria dos setores conseguiu reajustar preços, de forma gradual em abril/maio, e com maior liberdade em junho/julho. O presidente Collor precisa agir já. Não se pode esperar por corridas de remarcação de preços – pois foram elas que resultaram em taxas de inflação mensais de 80% em 1989 e de 40% em 1990, nos meses do “choque”. É óbvio (até demais) ser extremamente mais fácil partir para nova etapa de controle da inflação com taxas de 10%, do que a partir de taxas de 20%, 30% ou 40%. Não há tempo a perder. A tomada de posição do próprio presidente precisa ser imediata, para que o país não mergulhe, desnecessariamente, em nova fase de explosão inflacionária e desorganização da economia. Neste país viciado em previsões pessimistas, o ressurgimento dos rumores de congelamento tende a ter efeito devastador, apesar de todos os indícios de que não apenas o controle, mas a própria queda da inflação é possível, neste momento. Há tranqüilidade no abastecimento de alimentos, à exceção da carne, alvo mais uma vez de incrível especulação (podendo-se prever que seus preços tendem a recuar após a louca disparada das últimas semanas). E, acima de tudo, vai-se fortalecendo a constatação de que, graças a mudanças no comportamento do consumidor brasileiro (ainda não suficientemente estudadas), a iminente liberação de cruzados não representa o tão falado risco de uma corrida consumista, apresentada pelos pessimistas como principal foco de pressão inflacionária para os próximos meses. As estatísticas estão aí, mostrando que os depósitos em cadernetas de poupança estão crescendo rapidamente, isto é, os cruzados já liberados (e mesmo a renda extra resultante das antecipações salariais) não estão indo maciçamente para o consumo. Não se pode jogar tudo isso pela janela. É preciso optar.



Acompanhar a vida do site RSS 2.0 | Mapa do site | Administração | SPIP Esta obra está licenciada sob uma Licença CreativCommons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil