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  Dieese dá munição para derrubar mito

Jornal Folha de S.Paulo , terça-feira 27 de janeiro de 1981


O Dieese demoliu ontem o último argumento que lideranças empresariais e o Ministério do Planejamento vêm usando para tentar arrochar o reajuste do salário mínimo em novembro e que, a prevalecer o seu ponto de vista, acompanharia apenas o aumento do custo de vida, medido pelo INPC. O reajuste, em outras palavras, não incluiria nem mesmo o acréscimo de 10% desse índice, concedido aos trabalhadores na faixa entre um a três salários mínimos.

Neste Pais onde é facílimo cultivar mitos em torno dos problemas econômicos – porque não se costuma pedir provas do que está sendo afirmado—tem-se alegado que conceder os 10% do INPC ao salário mínimo traria "grande peso" para as empresas, já que todas as demais faixas salariais também seriam beneficiadas por reajustes maiores. "O salário mínimo puxaria todos os salários", afirma-se com ar inteligente.

Levantamento que acaba de ser divulgado pelo Dieese, com base na folha de salários da Cosipa — Companhia Siderúrgica Paulista — e da Usimec — Usiminas Mecânicas S.A. mostra um resultado totalmente diferente. No caso da Cosipa, a folha de salários "antes do aumento", de 722 milhões de cruzeiros, pularia para 1,005 bilhão de cruzeiros, com o INPC de 38,1% ou para 1,006 bilhão de cruzeiros, no segundo caso, isto é, o INPC mais 10% (o estudo do Dieese usou como base o aumento do salário mínimo em maio). Variação da folha de salários: 39,3%, no primeiro caso, e 39,4% no segundo. Isto mesmo, 0,1% de diferença. No caso da Usimec, a diferença seria igualmente de 0,1%, ou de 36 mil cruzeiros (é mil, mesmo, isto é, o equivalente a quatro salários mínimos...).

Por que a diferença ê tão pequena? Os cultivadores do mito de que "salário inflaciona", "salário pesa no custo das empresas" já fizeram até lideres empresariais tidos e havidos como progressistas esquecerem-se que, como as faixas salariais mais altas são reajustadas em apenas 80% ou 50% do INPC, isto faz com que apenas um pequeno percentual do aumento concedido ao mínimo beneficie essas faixas. Para ficar mais claro, use-se o próprio exemplo da Usimec (ver tabela), empresa onde predominam os trabalhadores na faixa de até três salários mínimos; o que aconteceria, se fosse concedido também o aumento de 10% do INPC?

* Faixa até três salários mínimos — beneficiada, como se sabe, pelo INPC mais 10%. O número de trabalhadores cresceria de 1.139 para 1.171, isto é, 32 a mais. Com isso, as despesas cresceriam nessa faixa de 33,0 para 34,1 milhões. Um aumento de 1,1 milhão de cruzeiros. A Usimec vai quebrar, por isso?

* Faixa de três a 10 salários mínimos — logicamente, nas demais faixas vai haver um decréscimo no número de trabalhadores. Entre três e dez salários mínimos, ele cai de 960 para 935, (isto é, 25 trabalhadores passam para a faixa de um a três salários), e a despesa cai de 48,9 para 48,6 milhões.

* Faixa de 10 a 15 salários mínimos — idem, ibidem. A soma de salários cai de 3,2 para 2,4 milhões, nesta faixa.

* Faixa de 15 a 80 salários mínimos — nenhuma alteração.

Em resumo, a empresa gastará mais com os trabalhadores até três salários mínimos. E gastará menos com os trabalhadores entre três e quinze salários mínimos. No final das contas, o aumento na folha de salários será de 41%, se aplicado só o INPC de 38,1%, ou de 41,1%, se aplicado o INPC, mais 10% — 0,1% de diferença.

Na Cosipa. onde predominam trabalhadores entre três e dez salários mínimos, o efeito é o mesmo: diferença de 0,l%.

Lembra o Dieese, finalmente, que se siderurgia o peso da mão de obra sobre o faturamento é de 6%, e, na indústria de máquinas, de 23%. Assim, os aumentos de 0,1% nas folhas salariais, com aplicação dos 10% do INPC, equivaleria a 0,005% do faturamento, no caso da Cosipa, e a 0,009%, no caso da Usimec - Milésimos de um por cento...

Já se disse, aqui, que o salário mínimo pode ter aumentos de 20%, 30% ou 40%, além do INPC, sem qualquer problema à economia ou às empresas. Os dados do Dieese reafirmam a correção desse ponto de vista. Só os mal intencionados, repetidores de mitos, não o percebem.



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