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  Cusparada nos Paulistas

Jornal Diário Popular , dezembro de 1999


Não foi na calada da noite. Nem por isso, a manobra foi menos odiosa. Sabia-se que o governo federal estava pronto para anunciar um novo prazo, de até três anos, para os Estados pagarem uma parcela de sua dívida, renegociada com o Tesouro, e que vencia anteontem. São Paulo seria o Estado mais beneficiado, já que era também o responsável pelo maior débito a ser liquidado, na faixa dos 2 bilhões de reais. O “perdão” provisório realmente foi anunciado. Mas São Paulo ficou fora dele. Por quê? Espante-se: à tarde, o governador Mário Covas resolveu “liquidar” aquela dívida, simplesmente “entregando” o Banespa ao governo federal, para que ele seja privatizado no próximo ano.

Argumento para a doação surpreendente? Pura e simplesmente, a afirmação de que “São Paulo não quer dever ao governo federal”...A explicação, de tão cretina, é um (outro) insulto a inteligência dos paulistas. O governador Mário Covas é engenheiro, tido e havido como de largos conhecimentos, no passado. A menos que esteja sofrendo de amnésia, deve saber, tanto quanto qualquer chefe de família ou dona de casa, que há momentos em que conseguir novo prazo para pagar qualquer dívida é ultravantajoso.

No caso do Banespa, o adiamento da dívida - e da entrega do banco – certamente seria considerado um presente dos céus pelo homem público Mário Covas que existiu no passado. Por quê? Como qualquer observador atento já percebeu, a verdade é que vem crescendo o debate sobre as distorções e negociatas das privações: o próprio governo FHC, agora, considera absurdos e quer revisão dos critérios para aumento de tarifas de energia e telefone (note bem: a mudança de atitudes só surgiu porque o governo está preocupado com a inflação; se na fosse isso, a ladroeira continuaria).

Há a revolta contra a devolução do Imposto de Renda e “ágios” (“mamatas” explicadas por esta coluna na semana passada). Estouram críticas contra as ferrovias privatizadas. E assim por diante. Em outras palavras, acumulam–se os sinais de que o processo de privatização vai sofrer revisões, e as “vendas” já não serão tão indiscriminadas. Isto significa que o governador Mário Covas, com o adiantamento da dívida, poderia ganhar tempo para esperar a rediscussão da privatização do Banespa, ou as condições em que ela seria feita.

Por que ele fez exatamente o contrário? Por que entregou o Banespa apressadamente ao governo FHC da noite para o dia? Quem é afinal o indivíduo Mário Covas que hoje ocupa o Palácio dos Bandeirante, que tudo decide sorrateiramente, ditatorialmente, sem abrir espaço para que a sociedade debata temas de seu interesse ligados ao patrimônio coletivo? Ele é o oposto do homem público que merece milhões de votos dos paulistas ao longo de sua carreira. Que motivos o levaram a dar uma cusparada na face dos paulistas, como é o caso dessa inopinada doação do Banespa?



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