Jornal Folha de S.Paulo , domingo 2 de dezembro de 1984
Pai alcoólatra, mãe prostituta. A criança criada num lar desses será, apesar de tudo, um adulto melhor estruturado emocionalmente, mais “recuperável” socialmente, do que os menores abandonados e criados em reformatórios, lares coletivos, instituições assistenciais de qualquer tipo. As conclusões são de minuciosa pesquisa, apresentada num congresso internacional sobre o problema do menor já há duas décadas.
Nela, técnicos vasculham a “história da vida” de jovens e adultos acusados de crimes e infrações de todos os tipos, para detectar, ao final, a importância fundamental de uma estrutura familiar, mesmo “desgraçada”, para a formação da personalidade da criança. Esse diagnóstico, bem conhecido pelos especialistas, é invocado aqui apenas como resposta à avalanche de perguntas sobre “o que se pode fazer”, “o que podemos fazer” para ajudar a minorar o horror da miséria e da sua irmã gêmea, a violência, que a todos aflige neste momento.
Em sua crueza, o diagnóstico enterra a crença de que tudo depende do governo, de instituições tipo Febem ou Funabem, de grandes organizações burocratizadas, frias, geladas. Abre, ao contrário, caminhos amplos para a ação de cada um de nós, no dia a dia, a partir dessa constatação básica de que tudo que se faça para manter o “lar” do menor trará o melhor resultado, também a longo prazo – evitando que, nos próximos anos, sejam engrossadas as legiões de desajustados, agentes e vítimas da violência.
Quais são esses caminhos? Os vários núcleos de uma família, grupos de amigos, colegas de trabalho, sócios de um clube, alunos de um colégio, moradores de uma rua ou um quarteirão podem somar esforços e recursos, e partir para a ação. Pode-se pagar um curso de madureza para o filho ou os filhos de uma doméstica, permitindo que eles disputem uma vaga melhor no mercado de trabalho (reportagem publicada pela Folha no último domingo comprovou o já sabido: o menor pobre tem maior dificuldade para arrumar um emprego, até de office boy, por que não tem escolaridade suficiente). Pode-se destinar o equivalente a 5% ou 10 % do que a própria família gasta em supermercado para comprar alimentos destinados a famílias paupérrimas, ou às voltas com o desemprego ou doenças, moradoras da própria vizinhança ou conhecidas dos participantes do grupo.
Pode-se ensinar, ou pagar cursos, de costura, tricô, bordado a adolescentes pobres, ou custear-lhes cursos de datilografia, também preparando-os para o mercado de trabalho. Como se pode demonstrar solidariedade em um sem-número de iniciativas: indicar, para vagas de emprego, as pessoas de famílias mais necessitadas, ajudá-los a obter assistência médica ou hospitalização, ajudá-los a “tirar” documentos e assim por diante. Parecem coisas pequenas, mas só quem não conhece a desvalia de nossas classes pobres não sabe o quanto elas representariam – se houvesse mobilização e solidariedade permanente.
A possibilidade de exercer a solidariedade dessa forma “independente”, pela ação individual ou de grupos, contorna um obstáculo que paralisa a muitos de nós, hoje. Qual é ele? A esmagadora maioria das pessoas reluta em participar de instituições organizadas – de Assembléia de Moradores de Bairros a entidades religiosas – escudando-se no “desencanto”. Nesses grupos, alega-se, acaba-se perdendo um tempo enorme com as “lutas políticas internas”, ou as tentativas de obter prestígio pessoal por parte deste ou daquele integrante. Essa ameaça, que existe, é afastada com a formação dos pequenos grupos sugeridos, envolvendo familiares, amigos, colegas, para uma ação direta de ajuda a grupos familiares que eles próprios selecionarão, com possibilidade e avaliar os resultados de sua solidariedade.
Para quem não tenha preconceitos em relação a organizações institucionalizadas, já existentes, há formas tradicionais ou novas de agir. Pode-se oferecer ajuda a um sem-número de instituições particulares ou oficiais, através de donativos em dinheiro, roupas usadas, alimentos – ou através do “trabalho voluntário”. A propósito nas creches da Febem, não falta leite para as mamadeiras dos bebês – mas falta quem lhes dê essas mamadeiras. Os berços são inclinados, para um lado, e a mamadeira é ajustada na boca do bebê, devidamente “calçada” para não rolar. Muitos não mamam. O leite não é tudo. Queriam um colo.
Inevitavelmente, não faltará quem ache que essas propostas de mobilização e participação são “sonhadoras”, diante das dimensões do problema da miséria e da violência. Na verdade, “sonhadoras” são as afirmações de que os governos, as instituições burocratizadas, conseguirão enfrentar o problema com a urgência que ele reclama. Estamos diante de uma emergência, uma terrível emergência, a que só a sociedade, num esforço coletivo, pode dar resposta no prazo necessário.
Não se pense, porém, que o apelo à solidariedade, à mobilização, impliquem em “inocentar” nossos governantes pela permanência da miséria e da violência. Não. Ao contrário. É preciso reavivar a solidariedade, sim. Mas é preciso, simultaneamente, reaprender nossos direitos de cidadãos. Também aqui é inútil negar: anos de ditadura nos tornaram descrentes, “nihilistas”, impotentes. Aceitamos os desmandos como “normais”, consideramos a corrupção como fenômeno rotineiro, repetimos que “nada muda” – quase prazerosamente. Ora, já há dois anos elegemos governos ditos de oposição, que falavam em participação e consulta à sociedade. Já devíamos ter levantado a cabeça, em lugar de curvá-lo sob o peso da descrença e da impotência: como em outros países, deveríamos cobrar dos vereadores, deputados, prefeitos, secretários, governadores, o cumprimento não de suas promessas, mas das obrigações que assumiram.
Não entendemos, ainda, que a democracia não transforma os homens públicos em “santos” com o fim automático da corrupção, dos conchavos, das decisões absurdas em que os interesses do povo não contam. Que a democracia, simplesmente, dificulta a corrupção, os conchavos, os desmandos – porque cria a possibilidade de a sociedade vigiar os atos dos governantes. É isso que podemos: levantar a cabeça, abandonar o “nihilismo”, a descrença, para fiscalizar – e cobrar. Através de organizações, ou individualmente até por meio de cartas, telegramas e outros meios de pressão sobre os ocupantes do poder.
Nada disso fazemos. Por isso, as distorções continuam. Exemplos? Na década de sessenta, a ditadura impôs a instalação do pólo petroquímico de Cubatão, apesar de todos os estudos mostrarem que as conseqüências sobre o meio ambiente e a população seriam terríveis. Hoje, o prefeito de São Paulo quer construir conjuntos habitacionais nas margens das represas que fornecem água à população da região metropolitana, sob argumentos bem parecidos com os da ditadura. Ontem, a ditadura fez obras faraônicas. Hoje, o governo de São Paulo monta um orçamento para 1985, e os deputados aprovam, que prevê gastos de Cr$ 1,2 trilhão com uma obra faraônica: o metrô. E reserva menos de Cr$ 10 bilhões para o “programa das cidades médias”, isto é, um programa concebido para estimular o desenvolvimento econômico do Interior, evitando que a região metropolitana continuasse a “inchar”, atraindo levas e levas de migrantes que somente ampliarão a miséria e a violência.
Desanimador? Não. Bons motivos para levantar a cabeça. Nossa descrença, nossa omissão, é altamente conveniente para os ocupantes do poder. Chega de impotência. Para começar: vamos exigir um programa contra a miséria e a violência, começando por uma política de emprego no Estado.